quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Blanchot

|Helena Carvalho

Procuro-te essa noite avistada quando as horas
se comprimem numa espiral compulsiva
e as imagens vivas são já as sombras do meio-dia.
Ouve-se nela o canto impossível de Orfeu
quase prodígio              quase eco cavo
a modulação da afonia como voz ferida
tornada prece.

Será aí a fonte atópica das formas
do pensamento porvir de uma paciência infinita,
o murmúrio esférico de um neutro lá onde 
toda a presença se refaz em rasto como sinal
e desaparição.

Lá onde a língua é um jogo de loucura que nos cresce por dentro
um pomar de espuma na boca
e boca é já fruto maduro
e fruto é já cereja
e cereja é fogo preso
e fogo é rito iniciático e sangue
é catarse e conversão.

Nasce aí o olhar felino
e as palavras todas, essas musas de prostíbulo.
Um dia hei-de acertar numa e oferecer-ta assim
ferida de morte.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Canto primeiro

|Helena Carvalho

Nada começa antes do canto
que nasce outro sob a pele e dentro dos caules
húmidos e intocados,
nem o choro redondo dos pássaros
nem esta voz estrangeira que me lacera
a garganta em gomos e diz antes de mim a volúpia
e a saudade.

Canto de primeira pedra
lançada ao lume primeiro vate
dos pulsos cerzidos na substância feérica
dos ventres prematuramente acesos e
nas doze rotações dos astros.
Tremor felino do corpo e dos frutos
maturados em cada estação de fogo
na sua participação cósmica quase lunar.

Canto absoluto
nascido não da voz mas dos tímpanos
matinalmente ligados ao ressoar anónimo dos búzios
e à contínua vibração dos graves.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Helena Carvalho

Helena Carvalho nasceu na Nazaré, em 1982. Licenciou-se e fez mestrado em Filosofia (UC, 2005; UL, 2013), tendo sido, durante alguns anos, professora do ensino secundário.


Em 2009, foi seleccionada para a Mostra Jovens Criadores (CPAI/IPJ), publicando um conjunto de poemas na colectânea Jovens Escritores 2009. Em 2012, recebeu o Prémio Revelação de Poesia APE/Babel com a obra Geometrias do Desejo (no prelo) e publicou, com a ilustradora Mariana Rio, o livro O Quebra-Cabeças (Edições Eterogémeas). Tem participado em revistas literárias e antologias. 

domingo, 20 de outubro de 2013

A Casa com Alpendre de Vidro Cego




A Casa com Alpendre de Vidro Cego conta, com a simplicidade característica da melhor literatura nórdica, a vida de Tora, uma menina nascida da relação de uma norueguesa com um soldado alemão durante a Ocupação, numa aldeia do Norte da Noruega.
Tora carrega o estigma da desonra que a torna alvo do escárnio dos vizinhos, mas é no lar que terá de enfrentar as investidas do perigo, sofrendocom a ausência da mãe, Ingrid, que tem de sustentar a família, e com os abusos do padrasto, Henrik, um homem violento. Apesar deste ambiente de pobreza e de miséria moral, Tora tem as ilusões próprias de uma menina da sua idade e desenvolve armas para lutar contra as adversidades.
A Casa com Alpendre de Vidro Cego é o primeiro título da trilogia de Tora que nos deixará, a todos, na expectativa de saber como será a vida da menina-coragem.

Herbjørg Wassmo nasceu em Vesterålen, no Norte da Noruega, em 1942. Iniciou a carreira literária em 1976, com o livro de poesia Bater de Asas (Vingeslag). O reconhecimento chegaria mais tarde, em 1981, com o primeiro romance A Casa com Alpendre de Vidro Cego (Huset Med den Blinde Glassveranda), uma obra que conquistou o estatuto de clássico da literatura norueguesa. O livro constitui o primeiro volume da trilogia de Tora, ao qual se seguiram O Quarto Silencioso (Det Stumme Rommet), em 1983, e o Céu Doloroso (Hudløs Himmel), em 1986.
A voz de Wassmo goza de um poder poético e evocativo que conduz o leitor até uma fronteira próxima da desintegração do jovem ser humano e da luta pela dignidade.
A trilogia de Tora, cujo primeiro volume a Arkheion Editora se orgulha de agora publicar, foi vencedora dos prémios Literary Critics’ Prize, em 1981, Booksellers’ Prize, em 1983, e Nordic Council’s Literary Prize, em 1987.

sábado, 19 de outubro de 2013

Poemas para André Meyer (II)

|Cristiane Rodrigues de Souza

VI
Gosto quando seu calor possui meus arrepios.



VII
Estão no extrato do cartão de crédito
os encontros
as risadas
as mãos dadas – ou não –
as noites de amor
do mês.


VIII
Houvesse jeito
pediria ao tempo para guardar
ao menos
sua risada.


IX
Durmo nos braços dele
e confundo seus carinhos
com o barulho de minhas asas


X
Você parte sem maldade,
depois de ajeitar os cabelos pegar o celular as chaves a carteira os meus desejos
de suas costas de seu sono de seu beijo abraço mas
deixa-me
a mim só
pura ternura.


XI
Gosto mais da lua com você

luou
a noite
a lua sua
minha
os ares pálidos
noturnos
notívagos
azul acima
em volta
a rua rarefeita
mas
sem
você
a lua sua

chora
longamente branca
escura

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Poemas para André Meyer (I)

|Cristiane Rodrigues de Souza

I

Você é meu luar que abraço
como neblina.

II
De manhã,
a aparição súbita da sua beleza
na cozinha
despenteada
sem camisa sem defesa
com olhar de amor noturno
causa no ar o susto de asa
de passarinho
que irrompesse
pela janela
ou de um beijo
inesperado
que te dou.

III
você
me abraça leve leve
toque touch
de tela de
 kobo

IV

Descubro-me, André,
em ti.
E quando partes
leva-me.


V
Há essa palavra
– preciso –
para definir o amor.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Motivos que fizeram Joana terminar namoros

|Cristiane Rodrigues de Souza

– Ele estava dançando com outras meninas!
(no bailinho da escola)

-

Perguntou se esperaria se decidir
            entre a ex
            e ela.

-

Não conseguia se lembrar do rosto dele
no outro dia.

-

Joana desejava que morresse
para que ele nunca tivesse existido

-

Demorou muito para dizer que a amava.

-

Olhava Joana fixamente
como louco

-

Demorou muito para dizer que a desejava.

-

Enchia a vida de Joana de borboletas amarelas
mas demorava a aparecer.

-

Ela não entendia sua letra nas cartas de amor.

-

Era muito Dom Juan!
            apesar de trazer luas de presente

-

Seu cheiro de maconha com álcool
dava náuseas em Joana.

-

Era muito lindo,
mas a deixou esperando uma noite inteira uma vez.

-

Não colocava pontos de interrogação
nas mensagens do celular
(e parecia imperativo quando era interrogativo)

-

Quando viajava
ele parecia o anão de jardim de Amélie Poulain
em suas fotos do Face.

-

Falava com a boca cheia
ao fazer sexo

oral.