quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Estudos para um corpo masculino

|Cristiane Rodrigues de Souza

1.
boca

o limite da
mordida
e do
beijo


2.
Dejà vu

seus olhos são meu corpo devorado


3.
repouso em seus ombros como a lua
japonesa


4.
sempre agradeço aos seus joelhos


5.
meus quadris
se pudessem
descreveriam os seus


6.
amo as articulações
dos seus dedos
quando dentro
de mim
precedem


7.
não existe nada mais malicioso
do que as suas costas

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pobre mão flagrada

|Cristiane Rodrigues de Souza

Fotografo
o de leve tremor
da minha mão
quando ela toma consciência
a meio caminho
do gesto vão.

Tiro foto
do very instante
em que indo
no momento mesmo de se ir
dando-se como oferta
ela hesita
porque não serve
disseram.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Depois do amor

|Cristiane Rodrigues de Souza

Depois do amor
nos meus braços ele dorme e sonha com a luz o sol o ar
o antigo dodge branco de seu pai
(a sua cabeça de menino no encosto do banco do dodge)
ouve na memória a música de deturpados cassetes
e ressente o carro trepidar por estradas
(Creedence).

Uma aurora confusa diz pra mim lá fora que é hora de despojar-se de despojar-se
e as árvores desapegam-se das flores das flores das luas
ignoradas no chão.

Mas meu corpo comovido em suas mãos cria nele ritmo de noite quente
ele me prende
e me enreda e me leva como as ondas de Creedence.

domingo, 13 de outubro de 2013

Cristiane Rodrigues de Souza



Cristiane Rodrigues de Souza nasceu em Adamantina, em 1975, e cresceu em Irapuru, pequenas cidades do interior do Brasil. Cursou Letras na UNESP, instituição em que concluiu o mestrado em Estudos Literários. O doutorado, sobre a poesia de Mário de Andrade, foi realizado na USP. Em 2006, publicou o livro de crítica literária Clã do jabuti: uma partitura de palavras.

Atualmente é professora de Literatura Brasileira e de Teoria da Literatura no ensino superior de Ribeirão Preto.

Pensamentos Dispersos

| Natércia Simões

Por vezes um silêncio interior
nasce em mim e vai e vem,
ao ritmo de um pêndulo
inconstante. Vem e pára,
vai e fica, preso no instante
único do agora.
Refugia-se na espera da chegada
das palavras últimas
do Adeus para sempre,
que urgem ecoar no meu destino
de te deixar ficar quando já foste.
E reúno-me longe
com lembranças que penetram
nos meus nervos e metamorfoseiam
a realidade de um sonho
que me consome e controla!

sábado, 12 de outubro de 2013

Límbico

| Catarina Costa

Extraíra de qualquer coisa escavável algo que só a ti podia servir. Tinha-o pronto a ser oferecido. Esculpira imaterialmente algo que só a ti podia caber. E depois tinha posto a dádiva sobre uma bandeja que segurava com tensão de equilibrista, de mulher-estátua, até doer o pulso, sem saber que passos dar, por não poder levar a bandeja para a sala de refeições, que ali seria fruto sem préstimo, desembaraçado da fome. Ou segurava a dádiva pela boca, trincava-a, fazendo-a regressar para dentro de mim, ao ponto de partida, sem uso. O que extraísse de um fundo escavável a ele deveria regressar. O que extraísse do corpo a ele deveria tornar. Ou preso ficaria para sempre nas pontas dos dedos, nos lábios, nos cabelos, para que não caísse. Com a bandeja na mão, estacava num limbo repassado pelo distúrbio.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Justiça popular

| Catarina Costa

Apazigua minha ira pensar na brutalidade e na estranheza dos sonhos que ele me relatou. Colocam-no no plano do isolamento, ele que não tolera a solidão. Abandonado, seus pontos de referência tornados absurdos por uma rompante multidão onírica. Falou-me de sonhos recorrentes em que a sua consciência se via a sós frente a uma incompreensível moral popular, uma justiça comunal kafkiana que desafiava as convenções éticas que ele mantinha da vigília. Rodeado por cidadãos zelosos, dispostos a executar sua bárbara vindicta em nome de uma lei inescrutável. Ele sentiria a culpa em vez deles? Seria a sua missão carregar-lhes os pecados? Ou seria ele o único incapaz de ascender ao estádio moral normativo? Por minha vez, falei-lhe nos meus sonhos em que a moral vigente mantinha, sem escapatória, a da vigília, ainda mais fortalecida entre as fronteiras concentracionárias do onirismo. Não precisava de ninguém para me indicar as leis. Os populares retraíam-se, punham-me com sua indiferença comprometida no centro do sonho para ser cobrada por mim mesma. Reclamava para mim a força centrípeta da justiça popular que já não encarnava em nenhum algoz: escorraçada para ser punida apenas no plano da minha consciência totalitária. Penso no modo como nos poderíamos unir em pólos opostos do pesadelo: ele, incapaz de entender as leis daqueles que se impunham impantes no abandono de actos por ora sem referentes, eu, absorvendo as leis gerais até saber que a absolvição é a última dádiva. Penso estar a caminhar ao seu encontro, os meus actos interpretados por ele como justiça popular de uma legião estrangeira. Não me chega a acusar. Sou eu quem me acuso, a consciência da abominação tanto na vida como no pesadelo.