domingo, 13 de outubro de 2013

Pensamentos Dispersos

| Natércia Simões

Por vezes um silêncio interior
nasce em mim e vai e vem,
ao ritmo de um pêndulo
inconstante. Vem e pára,
vai e fica, preso no instante
único do agora.
Refugia-se na espera da chegada
das palavras últimas
do Adeus para sempre,
que urgem ecoar no meu destino
de te deixar ficar quando já foste.
E reúno-me longe
com lembranças que penetram
nos meus nervos e metamorfoseiam
a realidade de um sonho
que me consome e controla!

sábado, 12 de outubro de 2013

Límbico

| Catarina Costa

Extraíra de qualquer coisa escavável algo que só a ti podia servir. Tinha-o pronto a ser oferecido. Esculpira imaterialmente algo que só a ti podia caber. E depois tinha posto a dádiva sobre uma bandeja que segurava com tensão de equilibrista, de mulher-estátua, até doer o pulso, sem saber que passos dar, por não poder levar a bandeja para a sala de refeições, que ali seria fruto sem préstimo, desembaraçado da fome. Ou segurava a dádiva pela boca, trincava-a, fazendo-a regressar para dentro de mim, ao ponto de partida, sem uso. O que extraísse de um fundo escavável a ele deveria regressar. O que extraísse do corpo a ele deveria tornar. Ou preso ficaria para sempre nas pontas dos dedos, nos lábios, nos cabelos, para que não caísse. Com a bandeja na mão, estacava num limbo repassado pelo distúrbio.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Justiça popular

| Catarina Costa

Apazigua minha ira pensar na brutalidade e na estranheza dos sonhos que ele me relatou. Colocam-no no plano do isolamento, ele que não tolera a solidão. Abandonado, seus pontos de referência tornados absurdos por uma rompante multidão onírica. Falou-me de sonhos recorrentes em que a sua consciência se via a sós frente a uma incompreensível moral popular, uma justiça comunal kafkiana que desafiava as convenções éticas que ele mantinha da vigília. Rodeado por cidadãos zelosos, dispostos a executar sua bárbara vindicta em nome de uma lei inescrutável. Ele sentiria a culpa em vez deles? Seria a sua missão carregar-lhes os pecados? Ou seria ele o único incapaz de ascender ao estádio moral normativo? Por minha vez, falei-lhe nos meus sonhos em que a moral vigente mantinha, sem escapatória, a da vigília, ainda mais fortalecida entre as fronteiras concentracionárias do onirismo. Não precisava de ninguém para me indicar as leis. Os populares retraíam-se, punham-me com sua indiferença comprometida no centro do sonho para ser cobrada por mim mesma. Reclamava para mim a força centrípeta da justiça popular que já não encarnava em nenhum algoz: escorraçada para ser punida apenas no plano da minha consciência totalitária. Penso no modo como nos poderíamos unir em pólos opostos do pesadelo: ele, incapaz de entender as leis daqueles que se impunham impantes no abandono de actos por ora sem referentes, eu, absorvendo as leis gerais até saber que a absolvição é a última dádiva. Penso estar a caminhar ao seu encontro, os meus actos interpretados por ele como justiça popular de uma legião estrangeira. Não me chega a acusar. Sou eu quem me acuso, a consciência da abominação tanto na vida como no pesadelo.  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Objecto de transição

| Catarina Costa

Não sustém sequer a cabeça, o saco de areia onde um sorriso simplório foi desenhado com uma caneta de feltro. E lembro teu ar que tão bem revelava conhecer as margens da graça. Estranha ironia, ser um sorriso aplainado a lembrar-me tua gravidade. Como se precisasse de um objecto de transição e fosse buscar artesanato de uliginosa memória. Deixo-o cair no chão: um estampido seco é a constatação da queda. O sorriso continua incólume e é essa figuração geral de uma alegria filogenética, parada no tempo, que me faz querer rever teus traços tristes, mais verdadeiros. Com uma agulha furo o saco de areia que é a cabeça e a areia escorre num jorro finíssimo como se caísse pelo gargalo de uma ampulheta. Fico a ver quanto tempo demora um saco feito cabeça ou uma cabeça feita saco a esvaziar-se até o sorriso ser apenas um risco e não me fazer querer lembrar mais o teu.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Corredores

| Catarina Costa

Cruzavam-se entre os corredores das repartições e entre as alamedas de árvores despidas. Foi um Outono de uma crueldade pouco tolerável para um deles, ou era ele que não queria aceitar sua tolerabilidade. Para o outro terá sido também isso ou algo radicalmente diferente sob o mesmo abandono outonal. De um jeito ou de outro, haverão de ter coincidido nos pontos configurados em raio que precedem a mudez. Caminhavam para um sítio fechado, a duas vozes emudecendo. Só um deles lá entrou, sem retorno. O outro ficou a observar a forma como, chegando-se aonde os pontos se fecham, os corredores deixam de desembocar, as alamedas deixam de confluir. Como as árvores podem ser sugadas sem ruído algum. E continuou a caminhar para um sítio ligeiramente mais aberto.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Bacillus

| Catarina Costa

O homem impunha sem hesitações seu carácter respeitável sempre que se manifestava, olhando incisivamente à sua volta. Preferia não olhar para dentro do espelho onde a sua cabeça semibruta emergia à distância e logo se voltava para o espaço que lhe faltava percorrer até ao êxito. Se havia retrospecção, esta fixava-se nas pontas do cabelo que deixavam seu viço por mais algum tempo em desalinho no perímetro de espelhamento. Polia o espelho, a superfície de um mundo, e entregava-mo com dedadas que eu escarafunchava até à sujidade última que o toque deixa, um bacilo solitário. Eu olhava o bacilo pelo microscópio. Com uma pinça iria esborrachá-lo contra o vidro. A parte da visão humana preparada para notar rastos iria captá-lo. O homem iria ver como escorre tão facilmente por uma lisura polida o bacilo do nosso ínfimo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Infibulação

| Catarina Costa

Não tinha como se defender. Mas não ia deixar que a torturassem. Não eles. Não dessa vez. Então avançou. Para o ponto em que não a poderiam acusar, em que seria a executante da lei nas hierarquias que se instalam no topo dos precipícios. Dos cumes alcantilados trataria de se recolocar no devido lugar cá em baixo junto aos terrenos. Seria aquela que executa a sua própria lei de cima abaixo. Seria responsável pela sua mudez última. Haveria de fechar todas as aberturas por onde a luz, o ar ou a fala poderiam sair. Iria fechar a lucarna, amarrar os membros às pegas nas paredes do compartimento. Iria coser os lábios. Praticaria a infibulação. Seria aquela que fecha as frestas, que autoriza apenas uma luz interior, engolida.