| Catarina Costa
Não sustém sequer a cabeça, o saco de areia onde um sorriso simplório foi desenhado com uma caneta de feltro. E lembro teu ar que tão bem revelava conhecer as margens da graça. Estranha ironia, ser um sorriso aplainado a lembrar-me tua gravidade. Como se precisasse de um objecto de transição e fosse buscar artesanato de uliginosa memória. Deixo-o cair no chão: um estampido seco é a constatação da queda. O sorriso continua incólume e é essa figuração geral de uma alegria filogenética, parada no tempo, que me faz querer rever teus traços tristes, mais verdadeiros. Com uma agulha furo o saco de areia que é a cabeça e a areia escorre num jorro finíssimo como se caísse pelo gargalo de uma ampulheta. Fico a ver quanto tempo demora um saco feito cabeça ou uma cabeça feita saco a esvaziar-se até o sorriso ser apenas um risco e não me fazer querer lembrar mais o teu.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Corredores
| Catarina Costa
Cruzavam-se entre os corredores das repartições e entre as alamedas de árvores despidas. Foi um Outono de uma crueldade pouco tolerável para um deles, ou era ele que não queria aceitar sua tolerabilidade. Para o outro terá sido também isso ou algo radicalmente diferente sob o mesmo abandono outonal. De um jeito ou de outro, haverão de ter coincidido nos pontos configurados em raio que precedem a mudez. Caminhavam para um sítio fechado, a duas vozes emudecendo. Só um deles lá entrou, sem retorno. O outro ficou a observar a forma como, chegando-se aonde os pontos se fecham, os corredores deixam de desembocar, as alamedas deixam de confluir. Como as árvores podem ser sugadas sem ruído algum. E continuou a caminhar para um sítio ligeiramente mais aberto.
Cruzavam-se entre os corredores das repartições e entre as alamedas de árvores despidas. Foi um Outono de uma crueldade pouco tolerável para um deles, ou era ele que não queria aceitar sua tolerabilidade. Para o outro terá sido também isso ou algo radicalmente diferente sob o mesmo abandono outonal. De um jeito ou de outro, haverão de ter coincidido nos pontos configurados em raio que precedem a mudez. Caminhavam para um sítio fechado, a duas vozes emudecendo. Só um deles lá entrou, sem retorno. O outro ficou a observar a forma como, chegando-se aonde os pontos se fecham, os corredores deixam de desembocar, as alamedas deixam de confluir. Como as árvores podem ser sugadas sem ruído algum. E continuou a caminhar para um sítio ligeiramente mais aberto.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Bacillus
| Catarina Costa
O homem impunha sem hesitações seu carácter respeitável sempre que se manifestava, olhando incisivamente à sua volta. Preferia não olhar para dentro do espelho onde a sua cabeça semibruta emergia à distância e logo se voltava para o espaço que lhe faltava percorrer até ao êxito. Se havia retrospecção, esta fixava-se nas pontas do cabelo que deixavam seu viço por mais algum tempo em desalinho no perímetro de espelhamento. Polia o espelho, a superfície de um mundo, e entregava-mo com dedadas que eu escarafunchava até à sujidade última que o toque deixa, um bacilo solitário. Eu olhava o bacilo pelo microscópio. Com uma pinça iria esborrachá-lo contra o vidro. A parte da visão humana preparada para notar rastos iria captá-lo. O homem iria ver como escorre tão facilmente por uma lisura polida o bacilo do nosso ínfimo.
O homem impunha sem hesitações seu carácter respeitável sempre que se manifestava, olhando incisivamente à sua volta. Preferia não olhar para dentro do espelho onde a sua cabeça semibruta emergia à distância e logo se voltava para o espaço que lhe faltava percorrer até ao êxito. Se havia retrospecção, esta fixava-se nas pontas do cabelo que deixavam seu viço por mais algum tempo em desalinho no perímetro de espelhamento. Polia o espelho, a superfície de um mundo, e entregava-mo com dedadas que eu escarafunchava até à sujidade última que o toque deixa, um bacilo solitário. Eu olhava o bacilo pelo microscópio. Com uma pinça iria esborrachá-lo contra o vidro. A parte da visão humana preparada para notar rastos iria captá-lo. O homem iria ver como escorre tão facilmente por uma lisura polida o bacilo do nosso ínfimo.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Infibulação
| Catarina Costa
Não tinha como se defender. Mas não ia deixar que a torturassem. Não eles. Não dessa vez. Então avançou. Para o ponto em que não a poderiam acusar, em que seria a executante da lei nas hierarquias que se instalam no topo dos precipícios. Dos cumes alcantilados trataria de se recolocar no devido lugar cá em baixo junto aos terrenos. Seria aquela que executa a sua própria lei de cima abaixo. Seria responsável pela sua mudez última. Haveria de fechar todas as aberturas por onde a luz, o ar ou a fala poderiam sair. Iria fechar a lucarna, amarrar os membros às pegas nas paredes do compartimento. Iria coser os lábios. Praticaria a infibulação. Seria aquela que fecha as frestas, que autoriza apenas uma luz interior, engolida.
Não tinha como se defender. Mas não ia deixar que a torturassem. Não eles. Não dessa vez. Então avançou. Para o ponto em que não a poderiam acusar, em que seria a executante da lei nas hierarquias que se instalam no topo dos precipícios. Dos cumes alcantilados trataria de se recolocar no devido lugar cá em baixo junto aos terrenos. Seria aquela que executa a sua própria lei de cima abaixo. Seria responsável pela sua mudez última. Haveria de fechar todas as aberturas por onde a luz, o ar ou a fala poderiam sair. Iria fechar a lucarna, amarrar os membros às pegas nas paredes do compartimento. Iria coser os lábios. Praticaria a infibulação. Seria aquela que fecha as frestas, que autoriza apenas uma luz interior, engolida.
domingo, 6 de outubro de 2013
Catarina Costa
Catarina Costa (1985). Publicou o seu primeiro livro em 2008
(Marcas de Urze, Editora Cosmorama).
Tem igualmente poemas publicados em algumas revistas, tais como a Oficina de Poesia, a Minguante, a Sibila, a Zunái e a Bólide.
O Corpo de Lúcifer (Ensaio poemático)
|Luís Coelho
Se bem que uma
certa Espiritualidade esotérica – e em particular a Teosofia de Blavatsky –
pretenda fazer do aparente binómio «Corpo – Espírito» uma Mónada de
substancialidade espiritual em que tudo é Uno e em que o Uno é o Absoluto, a
tentação de contrapor a tal coerente monismo o protótipo de uma dualidade do
tipo «Espírito vs. Matéria» não pode deixar de ser sentida enquanto produto de
uma natural devassa interna, que é aquela que, urgindo o mecanismo de defesa de
cariz psicanalítico, contenta a natural aversão à Unidade e a atracção à
transubstanciação de fronteiras.
Jaz já, então, a
tentação demoníaca nesta tão grotesca tendência para a fragmentação de uma
Unidade, na qual toda a diversidade e todo o movimento conspiram nos termos de
um jogo de ilusões, teatro de máscaras que apela à multiplicidade de um
Demiurgo que se contenta com a quimera do livre-arbítrio decisor.
sábado, 5 de outubro de 2013
Quatro poemas de António LaCarne
|António LaCarne
poema para cálices & pessoas ausentes
não há espaço
nem alienígenas circunspectos
viajantes são nossos segredos nas estantes
performance madrugada de mil dentes
o amor que platina os bosques
regiões de fuga rodopiam meu percurso
& omisso adorar
raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo
relíquias de auroras boreais retidas no espaço
pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices
comemora descalça os ventos daí
os 365 beijos que eu jamais quis
as dolorosas formas do poder floral & dos carmas
exatidão em páginas & eles desenham fatalidades
tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.
poema para cálices & pessoas ausentes
não há espaço
nem alienígenas circunspectos
viajantes são nossos segredos nas estantes
performance madrugada de mil dentes
o amor que platina os bosques
regiões de fuga rodopiam meu percurso
& omisso adorar
raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo
relíquias de auroras boreais retidas no espaço
pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices
comemora descalça os ventos daí
os 365 beijos que eu jamais quis
as dolorosas formas do poder floral & dos carmas
exatidão em páginas & eles desenham fatalidades
tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.
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