Catarina Costa (1985). Publicou o seu primeiro livro em 2008
(Marcas de Urze, Editora Cosmorama).
Tem igualmente poemas publicados em algumas revistas, tais como a Oficina de Poesia, a Minguante, a Sibila, a Zunái e a Bólide.
domingo, 6 de outubro de 2013
O Corpo de Lúcifer (Ensaio poemático)
|Luís Coelho
Se bem que uma
certa Espiritualidade esotérica – e em particular a Teosofia de Blavatsky –
pretenda fazer do aparente binómio «Corpo – Espírito» uma Mónada de
substancialidade espiritual em que tudo é Uno e em que o Uno é o Absoluto, a
tentação de contrapor a tal coerente monismo o protótipo de uma dualidade do
tipo «Espírito vs. Matéria» não pode deixar de ser sentida enquanto produto de
uma natural devassa interna, que é aquela que, urgindo o mecanismo de defesa de
cariz psicanalítico, contenta a natural aversão à Unidade e a atracção à
transubstanciação de fronteiras.
Jaz já, então, a
tentação demoníaca nesta tão grotesca tendência para a fragmentação de uma
Unidade, na qual toda a diversidade e todo o movimento conspiram nos termos de
um jogo de ilusões, teatro de máscaras que apela à multiplicidade de um
Demiurgo que se contenta com a quimera do livre-arbítrio decisor.
sábado, 5 de outubro de 2013
Quatro poemas de António LaCarne
|António LaCarne
poema para cálices & pessoas ausentes
não há espaço
nem alienígenas circunspectos
viajantes são nossos segredos nas estantes
performance madrugada de mil dentes
o amor que platina os bosques
regiões de fuga rodopiam meu percurso
& omisso adorar
raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo
relíquias de auroras boreais retidas no espaço
pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices
comemora descalça os ventos daí
os 365 beijos que eu jamais quis
as dolorosas formas do poder floral & dos carmas
exatidão em páginas & eles desenham fatalidades
tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.
poema para cálices & pessoas ausentes
não há espaço
nem alienígenas circunspectos
viajantes são nossos segredos nas estantes
performance madrugada de mil dentes
o amor que platina os bosques
regiões de fuga rodopiam meu percurso
& omisso adorar
raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo
relíquias de auroras boreais retidas no espaço
pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices
comemora descalça os ventos daí
os 365 beijos que eu jamais quis
as dolorosas formas do poder floral & dos carmas
exatidão em páginas & eles desenham fatalidades
tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Do amor à pátria que, como mãe bondosa, acolheu a menina tupiniquim
Até parece que foi ontem, mas já lá se vão quatro longos anos. Nunca fui boa em matemática e toda a gente sabe disso. Por isso mesmo, perdoem-me os amantes das "quatro operações fundamentais", para o caso de alguma falha nos meus cálculos. Isso por que fiz cá umas contas muito rápidas, para o que aponto os seguintes resultados: 4 anos multiplicados por 365 dias e 6 horas somam o singelo resultado de 1.461 dias ou, se preferirem, 35.064 horas ou [quem sabe?!], ainda, 2.103.840 de minutos repletos de muita vida desde que pousei meus pés em terras lusitanas.
Esqueçam lá os números por um instante! Primeiro, por que confesso que não conferi se fiz bem as contas todas; Segundo, por que os números pouco importam, já que o que está em causa é a QUALIDADE e não a quantidade dos dias vividos nesta terra que me acolheu de [a]braços abertos.
Já viajei muito por este país e gosto de dizer que conheço melhor a cidade que escolhi para viver [Ó minha adorada Invicta!] que muitas das pessoas que nasceram e foram criadas aqui. E, no decorrer destes quatro anos muito bem passados deste lado do Atlântico, flertei descaradamente com Lisboa, namorei muito seriamente com Viana do Castelo, curti deliberadamente com o Alentejo e arredores. Mas me apaixonei perdidamente pelo Porto. Posso lhes garantir, senhoras e senhores, que foi amor à primeira vista! E o melhor: tudo bem medido e bem pesado, asseguro que este amor é recíproco.
O tempo passa a voar, é verdade. Lembro-me com clareza da tarde em desembarquei aqui, das expectativas todas que trazia em minha bagagem, da saudade daqueles que havia deixado do lado de lá do oceano, do receio de não ser bem aceita [menina forasteira!], das diferenças culturais que sabia que, em breve, enfrentaria... Um turbilhão de sensações que me fazia sentir os pés fora do chão.
Mas o que parecia assustador numa análise muito superficial, logo se mostrou como sendo das melhores experiências de vida que poderia ter. Tantos amores já cá vivi, bem como a sorte que tenho pelos muitos amigos que rapidamente fui fazendo por onde passava [que povo amistoso é o povo português!], talentos que descobri ter, muitas vezes com alguma dificuldade, mas de maneira sempre gratificante. Poderia passar o resto do dia escrevendo, escrevendo, escrevendo... Mas tudo soaria como "lugar comum" [parece sempre tão clichê declarar o amor assim, gritando aos quatro ventos, para que toda a gente possa ouvir].
Assim sendo, e por aqui fico, deixo o registo para a posteridade: BRASIL, "tô" morrendo de saudade e já faltou mais para sentir meus pés no MEU chão outra vez, mas por enquanto... É por cá que quero ficar e, como costumo dizer sempre, "enquanto esta terra por cá me quiser, por cá estarei!". Amo-te, PORTUGAL!
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
“Não parti. Mas já não sei voltar.”
|Filipa de Lima
O sol tingiu de tons laranja o céu, e reflectiu a sua luz por todas as superfícies brilhantes que existem na Terra. Lá fora, do lado exterior do nosso carro, o mundo é caótico com o trânsito parado no tempo, suspenso como numa película fotográfica. Cá dentro, no nosso mundo, a atmosfera é composta por milhares de partículas que apenas se movem pela nossa respiração. Qualquer som é inaudível, tu conduzes alheio a todos os sentidos e eu olho a minha janela, dando-te as minhas costas, não vás tu aperceber-te dos meus olhos brilhantes, das lágrimas que amarfanho num nó insuportável que se prende na minha garganta.
Estás alheio a tudo, continuas a tamborilar os teus dedos no volante a um ritmo constante, que hoje, no silêncio absoluto em que nos encontramos, assume um volume ensurdecedor e extremamente assustador. Estás sempre alheio a tudo, nunca prestas atenção a nada. Nem daquela vez que cheguei a casa tarde e desalinhada, não me perguntaste onde estive, com quem estive, porque cheguei tão tarde. Ignorância tua que teimaste em continuar a ter, arrogância minha em manter a clandestinidade de uma relação que não conhecias. Ou como daquela vez em que tirei as nossas fotografias do escritório, e tu nem deste conta. Fi-lo, não por já não me seres nada, mas porque não sabia se eu ainda te era alguém.
Hoje, como tantas outras vezes, olhava a minha janela para que não desses pela minha presença, pensava que sendo discreta não davas por mim e talvez não me mandasses já embora. O trânsito avançou finalmente e um outro carro parou do meu lado, o condutor, um homem de ar cansado, olhou-me os olhos e acho que percebeu que o brilho dos meus olhos não era um bom augúrio. Fiquei-lhe grata não só por se ter apercebido mas também por ter desviado os seus olhos no segundo a seguir.
Tenho os olhos vermelhos e não posso pestanejar, não vá eu perder o ponto de equilíbrio e as lágrimas desabarem. Tenho o choro estanque, preso por um dique como numa barragem em que o rio é impedido de correr eternamente contornando os obstáculos por que passa, mas não quero que me perguntes nada. Dói-me os dedos de apertar a mão com força em volta da maçaneta da porta, estou pronta para correr mal percebas os meus olhos vermelhos. O ar começa-me a faltar, as costelas apertam a minha caixa torácica onde sinto o meu coração a bater com demasiada força, e demasiado lentamente.
O trânsito continua parado, as luzinhas vermelhas desfocadas parecem-me balas directas a mim, um sinal divino, uma deformação da visão, não me interessa. Sei que tenho um colete-de-forças invisível que me impede de abrir a porta, tenho a boca presa e não te consigo pedir para parares. Para me deixares ali que eu vou a pé. Apanho um táxi, preciso de sair, vou ter a casa depois.
E por milagre, o trânsito avança e eu não consigo suportar mais a revolução que tenho presa dentro de mim. As minhas lágrimas transbordam silenciosas e alagam os meus olhos, descem a minha face, caem sorrateiramente pelo meu pescoço.
Desbravo e finalmente choro enquanto tu regulas a sintonia do rádio, e por sorte não dás – nunca dás – por nada.
O sol tingiu de tons laranja o céu, e reflectiu a sua luz por todas as superfícies brilhantes que existem na Terra. Lá fora, do lado exterior do nosso carro, o mundo é caótico com o trânsito parado no tempo, suspenso como numa película fotográfica. Cá dentro, no nosso mundo, a atmosfera é composta por milhares de partículas que apenas se movem pela nossa respiração. Qualquer som é inaudível, tu conduzes alheio a todos os sentidos e eu olho a minha janela, dando-te as minhas costas, não vás tu aperceber-te dos meus olhos brilhantes, das lágrimas que amarfanho num nó insuportável que se prende na minha garganta.
Estás alheio a tudo, continuas a tamborilar os teus dedos no volante a um ritmo constante, que hoje, no silêncio absoluto em que nos encontramos, assume um volume ensurdecedor e extremamente assustador. Estás sempre alheio a tudo, nunca prestas atenção a nada. Nem daquela vez que cheguei a casa tarde e desalinhada, não me perguntaste onde estive, com quem estive, porque cheguei tão tarde. Ignorância tua que teimaste em continuar a ter, arrogância minha em manter a clandestinidade de uma relação que não conhecias. Ou como daquela vez em que tirei as nossas fotografias do escritório, e tu nem deste conta. Fi-lo, não por já não me seres nada, mas porque não sabia se eu ainda te era alguém.
Hoje, como tantas outras vezes, olhava a minha janela para que não desses pela minha presença, pensava que sendo discreta não davas por mim e talvez não me mandasses já embora. O trânsito avançou finalmente e um outro carro parou do meu lado, o condutor, um homem de ar cansado, olhou-me os olhos e acho que percebeu que o brilho dos meus olhos não era um bom augúrio. Fiquei-lhe grata não só por se ter apercebido mas também por ter desviado os seus olhos no segundo a seguir.
Tenho os olhos vermelhos e não posso pestanejar, não vá eu perder o ponto de equilíbrio e as lágrimas desabarem. Tenho o choro estanque, preso por um dique como numa barragem em que o rio é impedido de correr eternamente contornando os obstáculos por que passa, mas não quero que me perguntes nada. Dói-me os dedos de apertar a mão com força em volta da maçaneta da porta, estou pronta para correr mal percebas os meus olhos vermelhos. O ar começa-me a faltar, as costelas apertam a minha caixa torácica onde sinto o meu coração a bater com demasiada força, e demasiado lentamente.
O trânsito continua parado, as luzinhas vermelhas desfocadas parecem-me balas directas a mim, um sinal divino, uma deformação da visão, não me interessa. Sei que tenho um colete-de-forças invisível que me impede de abrir a porta, tenho a boca presa e não te consigo pedir para parares. Para me deixares ali que eu vou a pé. Apanho um táxi, preciso de sair, vou ter a casa depois.
E por milagre, o trânsito avança e eu não consigo suportar mais a revolução que tenho presa dentro de mim. As minhas lágrimas transbordam silenciosas e alagam os meus olhos, descem a minha face, caem sorrateiramente pelo meu pescoço.
Desbravo e finalmente choro enquanto tu regulas a sintonia do rádio, e por sorte não dás – nunca dás – por nada.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Antologias
Recensão à antologia de poesia Mixtape
Algumas antologias poéticas têm o nobre propósito
de divulgar os poetas que nelas vêm contidos. Outras têm um propósito meramente
académico. Outras, ainda, um propósito pedagógico. E existem aquelas que têm o
propósito de estabelecer uma espécie de cânone. Há antologias poéticas que
respeitam um tema. Lembro-me, por exemplo, de A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX (Assírio
& Alvim, 2009), com selecção e prefácio de Manuel de Freitas. Estas são,
porventura, as mais difíceis de organizar e as mais difíceis de defender, pois,
como bem refere Manuel de Freitas: «é desde logo garantido que ela não obterá
nem o consenso dos contemporâneos nem o favor da «eternidade» (…) [e] dir-se-ia
que as antologias têm a incómoda particularidade de envelhecer ainda mais
depressa» (p. 9). Por seu lado, Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro,
na Antologia da Novíssima Poesia
Portuguesa (Livraria Morais Editora, 1961), referem que «organizar
Antologias reveste-se de particular delicadeza» (p. XIII), o que desde logo
parece ser a característica mais óbvia, principalmente porque devemos ter
sempre em conta o carácter subjectivo das mesmas, que deriva, em boa parte, do
gosto pessoal de quem antologia.
A editora do
lado esquerdo decidiu arriscar uma antologia de nome Mixtape (do lado esquerdo, 2013). Não existe qualquer referência
aos organizadores da antologia, mas parte-se do pressuposto que a mesma é da
responsabilidade de Maria Sousa e Nuno Abrantes (editores). O tema comum, ou
melhor, o tema englobante, é a música. Na epígrafe podemos ler: «É difícil
fazer uma boa cassete de compilação» (Nick Hornby). O mesmo pode ser dito sobre
fazer uma boa antologia.
Não deve ter sido tarefa fácil, seleccionar e reunir
vinte nomes no mesmo livro[1] — apesar de o tema ter
sido respeitado por todos —, quando esta selecção tem nela vozes poéticas tão
díspares. Este facto leva a um outro: os poemas são desiguais, o que provoca
uma antologia desconcertante em desequilíbrio (risco este que os antologiadores
previram seguramente), isto é, uma feliz antologia provocatória. Algumas falhas
na revisão final também podem contribuir para algum ruído de fundo, o que, ao
contrário de hoje por questões saudosistas, eram então sublinhados a vermelho por
todos aqueles que gravavam cassetes ou faziam mixtapes.
No entanto, é de louvar a aposta duma editora numa
antologia, que a caminho do quinto título em poucos meses, divulga a poesia que
é feita neste nosso país. Tudo isto sabendo, a priori, o risco que correm.
AA.VV., Mixtape, posfácio de Francisco Amaral, Coimbra: do
lado esquerdo, 2013, 77 páginas.
[1] Ana Caeiro, André Tomé, Bruno Béu,
Bruno Sousa Villar, Carlos Veríssimo, Daniel Francoy, Hugo Milhanas Machado,
Inês Fonseca Santos, Ismar Tirelli Neto, Joana Jacinto, Luís Filipe Cristóvão,
Margarida Ferra, Maria Sousa, Marília Garcia, Miguel Pires Cabral, Pedro S.
Martins, Pedro Santo Tirso, Raquel Nobre Guerra, Ricardo Marques, Tatiana Faia
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Editorial: Sem tempo para guerras
|Luís Filipe Cristóvão
Sem tempo para guerras, assumimos a luta pelo sonho – sonhamos um espaço onde os autores podem divulgar o seu trabalho e onde leitores podem descobrir novos caminhos de saber. Falhamos, constantemente, umas vezes atrás das outras, mas não desistimos. Ao nosso sonho correspondem, mensalmente, novas vozes e novas ideias, as nossas portas estão abertas, façamos deste recreio um espaço para nos renovarmos.
Sem tempo para guerras, assumimos a luta pelos nossos direitos – inventamos o que ocupa o vazio e permanecemos em constante desbravar de sensações. Queremos que as nossas palavras sejam sentidas, queremos que as nossas imagens sejam emocionantes, queremos que o nosso estímulo não se perca no vazio. Connosco, estão todos os autores que comungam deste desejo de ser maior, entre as nossas janelas corre o ar, façamos desta sala um espaço para nos encontrarmos.
Sem tempo para guerras, não desistimos. Não precisamos de mais razões para fazermos aquilo que queremos fazer. E o que nós queremos, agora – como querem todos vocês que por aqui passam em busca de espaço para publicar, algo para ler, muito para sonhar – é isto. Esta é a Sítio. Construam nela a vossa casa.
Nota: Porque esta revista é feita por múltiplas vozes, os editoriais passam agora a ser assinados. A cada um deles, corresponde uma cara, um pensamento, um desejo. Tal como a cada dia, nos poemas, nas prosas, nas fotografias.
Sem tempo para guerras, assumimos a luta pelo sonho – sonhamos um espaço onde os autores podem divulgar o seu trabalho e onde leitores podem descobrir novos caminhos de saber. Falhamos, constantemente, umas vezes atrás das outras, mas não desistimos. Ao nosso sonho correspondem, mensalmente, novas vozes e novas ideias, as nossas portas estão abertas, façamos deste recreio um espaço para nos renovarmos.
Sem tempo para guerras, assumimos a luta pelos nossos direitos – inventamos o que ocupa o vazio e permanecemos em constante desbravar de sensações. Queremos que as nossas palavras sejam sentidas, queremos que as nossas imagens sejam emocionantes, queremos que o nosso estímulo não se perca no vazio. Connosco, estão todos os autores que comungam deste desejo de ser maior, entre as nossas janelas corre o ar, façamos desta sala um espaço para nos encontrarmos.
Sem tempo para guerras, não desistimos. Não precisamos de mais razões para fazermos aquilo que queremos fazer. E o que nós queremos, agora – como querem todos vocês que por aqui passam em busca de espaço para publicar, algo para ler, muito para sonhar – é isto. Esta é a Sítio. Construam nela a vossa casa.
Nota: Porque esta revista é feita por múltiplas vozes, os editoriais passam agora a ser assinados. A cada um deles, corresponde uma cara, um pensamento, um desejo. Tal como a cada dia, nos poemas, nas prosas, nas fotografias.
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