quinta-feira, 4 de julho de 2013

O pássaro morto

|Ana Correia

Está um pássaro morto no asfalto. Um Melro, macho, a julgar pela penugem negra. Uma fêmea aproxima-se, confirma o óbito. Parece confusa. Aproxima-se um automóvel, cego, cegando com a luz dos seus faróis. A fêmea levanta voo afastando-se da carcaça daquele que era seu companheiro há duas Primaveras.
Os automóveis continuam a passar. No fim do dia, apenas uma mancha escura no asfalto testemunha a existência de menos um Melro no mundo. Ninguém irá notar, ninguém saberá que há menos um Melro no mundo.
Mesmo que o seu corpo não se desintegrasse, mesmo que os pneus dos automóveis não estropiassem o seu pequeno corpo, poucos são os que parecem ver os cadáveres que se amontoam na berma da estrada. E um Melro, bom, é apenas um pássaro.
No Ninho, feito pelos dois, a fêmea continua a alimentar as suas crias e sente que há menos um Melro no mundo.



Ana Correia escreve no blogue Freak Perfume

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mesa do Canto – Das estranhas coisas que me interessam

|Alexandra Malheiro

Na confortável posição em que me encontro, mesa de canto, montra do mundo, que é afinal a montra do meu café, conforme mexo o açúcar no fundo da chávena, pergunto-me que coisas são as que me interessam e que, depois, hei-de verter em prosa ou em verso ou aqui pela crónica a fingir de literatura.

Percebo que do mundo me interessa pouco a crise, os maneirismos afectados do Portas a sacudir-se, ele do governo e o seu desgoverno do capote, interessa-me pouco o ruído fatigado da televisão, o futebólico gemido pseudo-heróico, erguendo cidades de felizes vencedores do nada.

Sento-me no meu café e rápido percebo que é ali que o mundo pára e se estabelece com novas tabelas e balizas, é ali que o meu novo mundo se ancora e me preenche, na verdade o mundo bem podia ser apenas aquilo que vai para lá da montra do meu café.

Interessam-me os pedintes, tão diversos, o cão o seu mendigo que por ele pede, por afecto, o de guitarra triste que canta com voz roufenha uma música à qual expeliu já toda a melodia, a velha arrastando-se ao calor, vestida de andrajos próprios para o Inverno há muito ultrapassado, interessa-me o quarteto de mórmones apertados por igual nas suas gravatas, amassando a bíblia cansada no sovaco. Interessa-me a rapariga muito branca e muito magra com uma saia subnutrida interrompida ao mais alto nível das coxas, deixando antever um tugúrio – talvez tão pálido? – como a pele que a ele conduz.

Interessa-me o rapaz do braço tatuado, desenhado de monstros e infernos – quem sabe os seus? – até à altura do punho. Interessa-me o homem velho, bem vestido e penteado, que há anos conheço fiel ao mesmo café, e que traz agora uma bengala, encastoada a prata, nem tanto para se apoiar nela mas para a usar arrastando-a, como os cegos, o seu sonar sondando o caminho adiante – como seremos nós na sua idade? Serei ainda, como ele, fiel ao mesmo café? Segurarei a chávena com trémulas mãos e aos olhos baços que lágrimas me acorrerão?

Interessa-me o homem extravagante, todo vestido de branco, de redundante e efeminada bolsa ao ombro, cantarolando bem alto uma canção que o par de auscultadores, também eles brancos, lhe debitam aos ouvidos.

Interessa-me o casal, pouco mais que adolescentes, ela de olhos rasos de água, vermelhos de abismo e ele procurando secá-los no seu abraço demorado – que misérias os devastariam àquela idade?

Interessa-me a madame e o seu lulu, com lacinhos grená nos caracóis e o homem das calças vermelhas, vagamente semelhando um artista ou um cowboy, nem sei bem.

E, é bem claro, interessa-me o silêncio que se põe na tua boca, o desejo precipitado nas pontas dos teus dedos e interessa-me ainda mais o castanho arredio dos teus olhos.

Enfim, acento e concluo, que tudo o que a mim me desperta é quanto ao mundo nada interessa.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Quem nos roubou a primavera?

|Filipa de Lima

Pé ante pé, com a graciosidade de uma bailarina profissional, M dança ao sabor da música do piano grave. As suas pernas sobrepõem-se numa conjugação eterna. Eleva os seus braços em arco sobre a cabeça e as pontas dos dedos tocam-se levemente. Mantém o olhar sereno, fixo num ponto imaginário, como o horizonte de um final de tarde quente.
As sapatilhas de dança estão gastas, as horas dos dias são passadas na sala em frente ao espelho. A mão apoia-se no corrimão, mantém-se em pontas e o seu gesto é leve, gracioso, perfeito. O braço sobe, as costas arqueiam, lança o pescoço para trás. Devagar volta à posição inicial. Larga o corrimão e corre para o meio da sala. Rodopia sobre ela própria, em cada volta cresce, de si para si. Só para si. A inocência da idade, a ingenuidade da infância, e rodopia, rodopia sobre ela própria.
Apesar do rosto sereno, não consegue encobrir o olhar duro. Os seus olhos castanhos não são suaves o suficiente para o ballet clássico. A sua essência provocadora não se entrelaça com a elegância do ballet. Não consegue mudar o olhar, ainda não sabe camuflá-lo. A sua pauta de música é grave, sonora e marcada de timbre forte.
Rodopia, rodopia sobre ela própria. Fá-lo pela eterna inocência, pela eterna infância que não quer ter. Pela ansiedade em crescer, em perder a pureza do seu gesto ao elevar os braços sobre a cabeça num arco perfeito.
As sapatilhas gastas mostram como rodopia e aprisiona a sua ingenuidade. As suas meias brancas têm uma malha no joelho, mas as suas quedas não a fazem desistir.
Rodopia, rodopia sobre ela própria, acabando deitada no chão de barriga para baixo. Apoia-se nos cotovelos e a palma da mão no seu queixo afirma a sua obstinação. O seu olhar é atrevido e malicioso. Balança os pés no ar seguindo a melodia do piano.
Vira-se de barriga para cima, olha o tecto do palácio velho, levanta-se devagar. Rodopia, rodopia sobre ela própria. Fá-lo pela sua eterna e inesgotável leveza.

Da porta entreaberta revia a sua infância, de olhos postos no meio da sala, em frente ao espelho. Via a sua expressão, velha e cansada. Rodopiou, rodopiou sobre ela própria, em direcção à escadaria, pela ansiedade que teve em crescer, em perder a pureza do seu gesto ao elevar os braços sobre a cabeça num arco perfeito.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em luta com o silêncio

|Editorial

Andamos em luta com o silêncio. Porque o silêncio, esse, se tornou desconfortável, como um par de sapatos que, apesar de muito usados, acabaram por não se acomodar, como deviam, aos nossos pés, até que nos chegou a coragem de os pôr de parte.

Andamos em luta com o silêncio. Porque nos tentam tapar a boca, pior, tentam tapar-nos as ideias, que se vão infiltrando pelos braços e nos obrigam a agir. Gastamos todas as energias, parece certo, porque estar em luta não é tarefa fácil para se viver todos os dias.


O nosso caminho não é o mais correto, nem as nossas razões mais fortes do que quaisquer outras. Fazemos o que fazemos, como o temos que fazer. Hesitar, hesitamos. Porque também a nós nos dói a indecisão, a repetição, as palavras ocas. Quase que nos calamos. Mas recomeçamos. Andamos em luta com o silêncio. 

domingo, 30 de junho de 2013

~ilha do farol ~olhão

|Pedro Jubilot

~ acabou o levante mas resta um suave alongar das ondas até se espraiarem no pontal de areia mais a sul do território. ao fim da tarde regressa o vento norte, mas agora na sua vertente quente. quando se deixa uma ilha, mesmo que perto de terra firme, há sempre um sentimento de perda. parece que lá deixámos um momento de vida irrecuperável. na travessia, por mais pequena que seja, há um qualquer segredo recôndito que se assoma. e que só a brisa marítima sossega, nesse lugar externo entre dois pontos indeléveis ~


sábado, 29 de junho de 2013

~cerro de s.miguel~moncarapacho ~olhão

|Pedro Jubilot

~ quando vou para o interior e subo a um monte, ou a outro ponto alto como uma serra, em vez de buscar com o olhar o que está mais para lá para o fundo, apontando ao norte, como faz a bússola, descubro-me a virar-me a sul à procura da paisagem que conheço bem. aquela onde me movo há mais tempo. quem cresceu junto ao mar e fica muito tempo sem o ver, começa a sentir no peito uma espécie de pressão. não lhe chega como azul, o só do céu, ou a constante luz de um sol brilhante. ficar muito tempo longe do mar provoca uma falta de iodo na respiração ~


sexta-feira, 28 de junho de 2013

~barril~stº luzia ~tavira

|Pedro Jubilot

~ a praia. é o pedaço de mundo por excelência que foi inventado para as crianças. e que nós tomamos de assalto em cada verão, para ver se ainda conseguimos trazer à memória esse tempo de quando éramos reis.
o mar, quente ou frio, é ainda e sempre do seu domínio. para isso elas constroem castelos e fortalezas à beira-mar, num árduo trabalho de carregar baldes de água e areia. a tarefa é sempre recompensada a bolas de berlim ou gelados ~