domingo, 30 de junho de 2013

~ilha do farol ~olhão

|Pedro Jubilot

~ acabou o levante mas resta um suave alongar das ondas até se espraiarem no pontal de areia mais a sul do território. ao fim da tarde regressa o vento norte, mas agora na sua vertente quente. quando se deixa uma ilha, mesmo que perto de terra firme, há sempre um sentimento de perda. parece que lá deixámos um momento de vida irrecuperável. na travessia, por mais pequena que seja, há um qualquer segredo recôndito que se assoma. e que só a brisa marítima sossega, nesse lugar externo entre dois pontos indeléveis ~


sábado, 29 de junho de 2013

~cerro de s.miguel~moncarapacho ~olhão

|Pedro Jubilot

~ quando vou para o interior e subo a um monte, ou a outro ponto alto como uma serra, em vez de buscar com o olhar o que está mais para lá para o fundo, apontando ao norte, como faz a bússola, descubro-me a virar-me a sul à procura da paisagem que conheço bem. aquela onde me movo há mais tempo. quem cresceu junto ao mar e fica muito tempo sem o ver, começa a sentir no peito uma espécie de pressão. não lhe chega como azul, o só do céu, ou a constante luz de um sol brilhante. ficar muito tempo longe do mar provoca uma falta de iodo na respiração ~


sexta-feira, 28 de junho de 2013

~barril~stº luzia ~tavira

|Pedro Jubilot

~ a praia. é o pedaço de mundo por excelência que foi inventado para as crianças. e que nós tomamos de assalto em cada verão, para ver se ainda conseguimos trazer à memória esse tempo de quando éramos reis.
o mar, quente ou frio, é ainda e sempre do seu domínio. para isso elas constroem castelos e fortalezas à beira-mar, num árduo trabalho de carregar baldes de água e areia. a tarefa é sempre recompensada a bolas de berlim ou gelados ~


quinta-feira, 27 de junho de 2013

~carvoeiro ~portimão

|Pedro Jubilot

~  falassem essas paredes, mesmo as de pedra branca sazonalmente caiadas. e nas janelas, as leves cortinas no seu algodão poroso oscilassem a cada suspiro na noite ou no dia. se os candeeiros alumiassem ainda que só quando a claridade desbota. não calasse a tua boca de cada vez que me abalroas os lábios confidenciando o sentido oculto do teu corpo. então não poderíamos delongar mais por aqui, meu amor (como se enuncia nalguma poesia o objecto de desejo) ~


quarta-feira, 26 de junho de 2013

~hangares ~olhão

|Pedro Jubilot

~ ninguém como tu ama o inverno dessa praia. donde recolhes as conchas que mais gostas, dispostas ao acaso no areal deserto. da  janela que estou a pintar com verniz acetinado nogueira para proteger a madeira da intempérie, vejo-te chegar da baixa mar. e abre-se-me o apetite ao teu corpo ainda envolto numa camisa de flanela grossa, trazendo o cheiro ao sal desse mar encrespado. vais colocá-las sobre o psichet do pequeno quarto da casa de férias, para as apreciares enquanto te penteias ao espelho, antes de vires para a cama. ninguém como eu ama o inverno desta praia no teu corpo ~


terça-feira, 25 de junho de 2013

~santa maria ~tavira

|Pedro Jubilot

~ durante algumas horas estarei aqui retido num dolente terraço, observando à volta o casario de telhados de tesoura, recortado sobre um rio que quase  ninguém por aqui sabe porque tem dois nomes, ou onde um acaba para o outro começar. fico remendando versos que também tu alinharias, se estivesses, nem que por um dia, num lugar como este. espreito a rua através das frestas da reixa das portas típicas da cidade. as pessoas que passam numa terna lentidão vão, entre parcas palavras, respirando desse ar impregnado de salmoura ~






segunda-feira, 24 de junho de 2013

Postais da Costa Sul - Pedro Jubilot


Os ‘Postais da Costa Sul’  foram escritos entre o verão de 2011 e o verão de 2012, ao longo da costa do Algarve e enviados através de facebook.pt, sendo o remetente Pedro Jubilot, e tendo como destinatários os amigos/público da conhecida rede social.
São pequenos textos ficcionados sobre a vivência, a paisagem, e claro… a passagem do tempo, de quem está junto ao litoral sul que agora se reúnem num pequeno livro algumas dessas mensagens que foram sendo lançadas no lugar etéreo e efémero da internet, tentado que ao passarem a existir impressos numa textura se tornem numa leitura mais física e real. E que se insinuem a novos leitores.



Pedro Jubilot
Professor, licenciado em línguas e literaturas modernas, escreve por passatempo, mas é um amante de muitos  tipos de arte. Nos anos 90 quando regressou ao Algarve foi autor de programas de rádio, criou a Húbris -agência cultural (olhão,1991), editou o fanzine ‘Tão Longe, Tão Perto’, escreveu letras para bandas pop, recebeu alguns prémios literários a nível local na modalidade de conto.  Em dezembro de 2001  o  seu microconto ‘A Visita’ foi escolhido pelo jornal Público para representar Portugal, tendo sido publicado em simultâneo nos jornais (El Pais, Corriere della Sera entre outros) dos 5 países organizadores. Actualmente é membro da Casa Álvaro de Campos-Tavira e colabora no ‘Cultura.Sul’, suplemento cultural do jornal Postal do Algarve.

BLOGUE          CanalSonora  http://canalsonora.blogs.sapo.pt/
FACEBOOK    Pedro Jubilot https://www.facebook.com/pedro.jubilot