quarta-feira, 19 de junho de 2013

creator

|Rute Castro

Trago espaço adormecido neste escuro que canta. Somos nós o  brinquedo interior de apanhar sonhos.

terça-feira, 18 de junho de 2013

animus

|Rute Castro

Tu.

de fora os sábios ferozes nesta corrida de ingénuos

vertes tão bem este sorriso de apertar o peito.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

de profundis

|Rute Castro

 treme-nos tudo atrás da porta, esconde-se o passado na voz por todo o lado e aquece o ar que deforma essa cruz altíssima de querer na boca,

                             de ser fugidio com força de ar o peso de esquecer.

Rute Castro - Biografia


Rute Castro nasce em 1982 em Faro, reside depois em diversas cidades, passando por Caldas da Rainha, Lisboa e até mesmo pela cidade da Guarda.
Com a idade de catorze anos resolve participar no prémio literário António Aleixo, ganhando por esta altura o primeiro prémio entregue pela escritora Lídia Jorge. Desde então nunca parou de escrever, dedicando-se primeiramente à prosa e mais tarde à poesia.
Licenciou-se em Língua e Cultura Portuguesa e fez uma pós-graduação em Ciências da Cultura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Em 2012 foi finalista na competição Fnac Novos Talentos de Literatura com o conto “Sobre os passos que matam”.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Morte

|Manuel Jorge Marmelo

Há manhãs em que tenho nas mãos um certo cheiro a morte. Tomo banho, esfrego-me, perfumo-me, mas o cheiro a morte persiste. Trago-o para o trabalho, esqueço-me dele, mas, de vez em quando, esse cheiro invade-me o nariz e faz-se recordar.

No autocarro, se vejo alguém olhando-me por mais do que um instante, desconfio que fui desmascarado e que os outros passageiros também sentem o cheiro a morte que trago nas mãos. Fecho os olhos, sinto perfeitamente o cheiro e imagino que os utentes me apontam todos com o nariz, que trocam olhares para dizerem “é ele, é esse o que cheira a morte”. Vejo-me levantando as mãos para mostrá-las como quem diz “vejam bem, as minhas mãos estão vivas, não podem cheirar a morte”, mas sei perfeitamente que é má ideia fazê-lo.

É possível que me acusassem de outras mortes cujo odor me tivesse impregnado, que me exigissem explicações e fizessem pergun- tas, mas eu não saberia como responder-lhes. Não sei onde escondo os meus cadáveres.

sábado, 8 de junho de 2013

Nos dias de 'brinchindim'

|Manuel Jorge Marmelo

Nos dias de 'brinchindim', como a minha mãe diz, o circo é ainda mais triste e melancólico do que é costume. Dá ideia que a ferrugem das rulotes fica mais escura e que é tudo muito mais feio; que os remendos da tenda grande se notam melhor e que as cores da lona estão mais desbotadas. A Mulher mais Gorda do Mundo parece ainda mais gorda e mais feia e o Lima ainda mais bruto. Nem a televisão me distrai. Os miúdos da televisão têm sempre outras crianças com quem brincar e parece que nunca chove e que nunca estão tristes. E, quando estão, acontece-lhes logo alguma coisa boa e eles ficam felizes.

Também tive vontade de a levar até à fonte para lhe mostrar as lesmas que lá vi há dias, mexendo-se muito devagarinho à beira do fio de água. Pensei que, se ela me visse pegar naqueles bichos pretos e viscosos com as mãos, de certeza que ia achar que sou um tipo sem medo de nada. Pegar em lesmas é o género de coisas que impressionam realmente uma miúda e eu acho que seria capaz de pegar nelas com as mãos e de lhes passar um dedo pelas costas e por aqueles pêlos curtos e ásperos que as lesmas maiores têm.
A minha mãe tem muito nojo das lesmas e era capaz de ficar muito zangada se soubesse que eu estou a pensar fazer uma coisa destas, mas isso não é um problema. Há coisas que as mães não têm de saber. Já basta que a Cristiana lhe tenha contado não sei bem o quê sobre o modo como eu olhava para ela enquanto mudava de roupa, e que, ao fim e ao cabo, eu tivesse sido castigado por causa disso.
Será que a miúda da lagoa se parece com a Cristiana quando não está vestida

De Somos Todos Um Bocado Ciganos

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Não sabendo muito bem

|Manuel Jorge Marmelo

Não sabendo muito bem o que fazer para me transformar num homem célebre, ocorreu-me passar a circular nos transportes públicos carregando e fingindo ler um livro grossíssimo, de mil e duzentas páginas em papel pólen soft e encadernação cartonada, ostentando na capa uma fotografia de uma paisagem urbana dos anos 1930 e o título: Cidade Conquistada. É um livro que não existe em mais parte nenhuma. Inventei-o eu — completamente.

Parece-me, por exemplo, que falta ainda uma guerra a Cidade Conquistada; que o livro de Oscar Schidinski ganhará densidade com a descrição de uma batalha, ou, melhor ainda, com a imagem melancólica de um soldado que, perdido do seu batalhão, entra numa cidade recém-bombardeada e não sabe se será acolhido como parte do exército triunfante ou como um elemento tresmalhado da tropa sitiante, caminhando trôpego entre ruínas ainda habitadas pelos corajosos resistentes. Marcel vem muito cansado, não dorme há seis dias, não come desde não sabe quando e tem os nervos desfeitos pelo ruídos dos voos rasantes, pelo estrondo das explosões, pelo matraquear das armas, pelos zumbidos das balas atravessando o ar, o grito dos homens feridos, o medo e a angústia de não saber quando tudo aquilo terá fim.

De Uma Mentira Mil Vezes Repetida