terça-feira, 28 de maio de 2013

Poesia de Carina Flor - 1

|Carina Flor

A Casa

Quem inventou a casa, devia saber.
Devia saber que ela veio alojar-nos numa liberdade insuportável.
É como estar fechado na impossibilidade de se libertar.

E continuamos presos às memórias sepultadas
nos cantos, no chão, na janela e também na porta.

Rendidos à sedução das felicidades impossíveis,
esquecemo-nos tristes no chão onde, mesmo de perto,
não se sente o cheiro a terra e a veracidades possíveis.

Como se pode almejar a felicidade livre se, nos cantos,
moram todas emoções que fizeram esgotar o coração?

Não adianta assear a casa.
Teremos apenas uma tristeza iludida de beleza.
Teremos uma janela e uma porta abertas para dentro,
para os cantos e para o chão, onde morremos lentamente.

Estende uma flor no teu dorso e caminha descomprometido
pelos caminhos de terra. Onde os passos são portas e janelas
por baixo de um céu tão imenso que nem ele, desejoso de azul,
saberá nunca se começa ou se termina junto ao mar.

*

Transcendência

Tudo em mim não são mais do que pernas.
E do que braços.

Todo o resto é essa imensa vontade de carne.
E osso.

São fossos de luz tão profundamente livres.
E hidratados.

Como água encarnada na vaporização da alma.
E do corpo.

*

Dormência

Este estado intermitente da alma
que, já cansada, não liberta ainda
toda a sua exaustão.

É como se dos pulmões,
e dos pulmões o peito,
regressassem tormentos de luz.

Este estado intermitente do corpo,
já desperto, adormece silencioso.

Dormência calada, encostada ao sonho.

Vislumbre incessante da vida
como única testemunha de si.



Carina Flor nasceu a 20 de Agosto de 1980, na Póvoa de Varzim. Professora licenciada, com pós-graduação em necessidades educativas especiais, exerce funções desde 2003. Dinamizadora de um blogue pessoal, destinado à partilha de textos. Colaboradora no manifesto Black Riot Book, um projecto editorial recente, destinado a coleccionadores de edição manufacturada e limitada.

Sítios:


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Livros a Oeste


Depois do sucesso do primeiro ano, a Lourinhã volta a organizar o evento "Livros a Oeste" que decorrerá de 27 de maio a 1 de junho e que trará, ao Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira, mais de três dezenas de reconhecidos autores no panorama literário nacional e internacional como: Nuno Camarneiro (prémio LeYa 2012), Valter Hugo Mãe, Alice Vieira, José Jorge Letria, Margarida Rebelo Pinto, Isabel Stillwel, Onésimo Teotónio de Almeida, Mário Zambujal, Afonso Cruz, entre outros.

Observando-se o formato pensado para este evento, a consecução do programa, passará pela realização de conferências, workshops, conversas com autores, sessões de cinema, teatro, apresentação de livros entre outras atividades, bem como a  feira do livro, patente durante todo o festival, numa clara aposta na diversidade, aliada à qualidade,  afirmando, mais uma vez,  a Lourinhã, como destino cultural alternativo aos grandes centros urbanos.

Toda a informação sobre o evento poderá ser consultado em http://livrosaoeste.blogspot.pt/

sábado, 25 de maio de 2013

Proibido Fumar

|Luís Filipe Cristóvão


O médico, diga trinta e três, trinta e três, eu a olhar fixamente para o esqueleto guardado a um canto do consultório, sem conseguir respirar, quanto mais dizer alguma coisa, um esqueleto branco e luzidio, com os ossinhos todos no lugar certo, inquebráveis como os brinquedos dos cães e sem pó como a sala sempre tão arrumadinha da Marlene, o médico, trinta e três, e eu a pensar outra vez na Marlene, já sem ouvir nada, sem conseguir dizer nada, sem pensar, completamente, sem pensar, a Marlene, há quanto tempo eu não fodo a Marlene, há quanto tempo não a oiço dizer, lambe-me cabrito, há quanto tempo não a vejo a passear a mini-saia pelo supermercado, há quanto tempo, Marlene, não fazemos amor no sofá da tua sala, o médico, trinta e três, caraças, trinta e três, e eu a explodir num ataque de tosse convulsiva.

   O senhor tem que ter cuidado consigo, muito cuidadinho, já viu em que estado está este exame aos pulmões, o senhor não tem vergonha, e eu não, não tenho vergonha, sim, confesso, três maços por dia, três macinhos, gigante, há mais de trinta anos que fumo gigante, e não é agora que os vou largar, doutor, eu preciso tanto deles, fazem-me tanta companhia, logo quando acordo, sozinho na cama, um cigarrinho, para acalmar a tosse e começar bem o dia, e depois aquele stress todo de andar sempre de um lado para o outro, a carregar caixas e caixas de bebidas, aquilo é carregar, voltar ao camião, acender cigarro, mandá-lo fora quando paro, carregar outra vez, o doutor acha que isto é vida, tem que ser o cigarrinho, doutor, tem que ser, pelo dia todo, só três macinhos, só três, que eu agora até deixei de fumar à noite.

   Desde que a Manuela e o puto saíram lá de casa que me andava a fazer espécie não haver nada para fazer depois de jantar, depois ter ido ao café espreitar a bola, ouvir a conversa da malta, um gajo volta para casa e não há nada, só o cigarrinho e depois?, até a Marlene me deixou de ligar, olhe, o puto deixou o computador lá em casa, sabe, o computador, e eu pus-me a experimentar aquilo, está a ver, internet, quem diria que eu me punha na internet, está a ver, mas eu até sou todo pintas e invento umas conversas giras, sabe, é verdade, doutor, umas conversas para aqui, outras para ali, digo que sou inventor, artista, escritor, doutor, está a ver, pus-me a dizer a uma gaja que era escritor e tretas, e agora não é que ela quer que eu escreva um romance, pá, um romance, não deve ser brincadeira, mas eu sou assim todo pintas, e pus-me a escrever, doutor, é verdade, invento umas coisas e assim, e lá vai saindo, doutor, por isso peço desculpa pelo trinta e três, peço desculpa pela tosse, mas os três macinhos não me os tira, que eu só deixo de fumar quando escrevo o romance.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Labirinto

|Luís Filipe Cristóvão


Existir-te é ser como um labirinto. Aproximar às minhas mãos o poder de criar e destruir todo um novo ser, alguém que aparece e logo se evapora, nas demoradas noites que inventas.

Existir-te é como me dar a perder, estar sempre prestes a oferecer-me como um objecto aos olhos de quem mais não quer ver do que o simples objecto em que me torno. E tudo isto acaba por se tornar num grande mar onde nos perdemos: eu, eles, e até tu, quem sabe, porque o facto de seres coloca-te a um pequeno passo de seres perdida.

Nas entrelinhas da história, cresce em mim a inexactidão desta vida. Pois se fui livre para me fazer assim, pois se foi gozo o que colhi das primeiras noites. [uma viagem para além do que sempre fui, na barca que eu sempre quis experimentar, no oceano que eu desejei depois de lido nos livros que escondo no fundo da gaveta]. Chego mesmo, quando me preparo para ser-te, a sentir uma espécie de ingratidão por mim. Pois se eu sou a beneficiária de te ter criado, pois se sou eu a razão de existires.

Na génese de tudo isto surgiu o desejo recalcado, a ausência de quem me confortasse. Demasiados anos à espera de encantamento. Despropositadas esperanças no encontro de um amor, de algo próximo disso. Nenhum abraço, nenhum olhar. E em cada noite, ao deixar cair a cabeça na almofada, a lágrima escorrida, o desejo que crescia. Ao acordar, onde nada restava que não fosse depressão, a chuva de readquiridas esperanças, frustradas logo ao sair da porta.

Na génese de tudo isto, uma menina que sonha. Uma criança que chora. Uma mão que se fecha. [e há quem espere toda a vida, sempre no mesmo círculo de ilusões, e até ao último passo para a morte, nunca se aperceba, nunca se encontre a si, no centro da arena do circo, ignorada por uma plateia vazia]. Um dia eu vi-me. Um dia eu vi-me. Senti-me. E estava vazia.

Como é incrível que o vazio possa ser tão dinâmico e venha a retirar do vácuo todos os elementos necessários à criação de um novo ser. Como é fabuloso perceber de onde viemos, ao sermos nós a mão formadora de uma nova vida, iludidos na possibilidade de sempre ter o controlo sobre o novo ser que nasce.

Eu sou a que aparece atrás da porta da casa de banho, eu sou a que cresce entre as árvores do bosque, eu sou a que se descobre num banco pútrido do jardim. Onde eles me desejam, eu sou. Quando eles me desejam, eu estou. Tudo isso em mim. Tudo isso em ti. E no entanto…

Em todo o poder há um descontrolo. Quando o poder é maior, tornando-se absoluto e absolutista, a proximidade da perda está lá, a hipótese do abismo aparece proporcionalmente. É nesse canto que eu me perco. É aí que existir-te é como me dar a perder. A construção é objecto mas o objecto fere-me a mim. Ao conquistar a antítese do sonho, volta a nós a necessidade dele, a lágrima caída na almofada suja do contacto com os cabelos, os meus cabelos que quando teus ficam marcados pelas mãos porcas daquele outro objecto que são eles.

Apercebo-me… No fundo, o objecto gera objecto. Eu não te criei. Eu apenas persegui o que pensava poder encontrar. E não mais fiz do que me enganar, pois que fui tu, e enganar-te, pois que, ainda assim, sempre fui eu. Existir-te é existir-me. Existir-me é um labirinto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ele

|Luís Filipe Cristóvão


Um deles amava mulheres feias. Ninguém acreditava que fosse possível amar tantas mulheres e tão feias como aquele fazia. E o que tornava de ainda mais difícil compreensão aquele fetiche era o facto de ele ser tão bem parecido que, com relativa facilidade, encontrava mulheres bonitas muito interessadas nele. Ali, num canto do bar, ele bebia mais um copo de whisky e falava das suas mulheres. Das mulheres feias.

Por exemplo, a Fátima. Doze anos mais velha que ele, à porta dos quarenta. Os dentes encavalitados uns sobre os outros, quase todos aninhados por pequenas cáries ou outros vestígios de indiferença. Um nariz fino e pequeno onde pousavam dois olhos esbugalhados, de um castanho sem graça. As sobrancelhas carregadas, uma pele desleixada. O cabelo oleoso, sempre mal penteado. Um amor sem igual, segundo ele, a mais sincera relação que duas pessoas podem ter. Algo que, sendo incompreensível ao mais mediano dos humanos, para aquela mente iluminada pela beleza das mulheres feias, representava o mais alto esplendor de luz divina.

Muitas vezes eu e outros amigos tentámos compreender o que o tinha feito assim. Muitos lembravam uma tal Dina ou Lina, um amor de adolescência, uma mulher brilhante, de doces feições, que o arrebatou cruelmente e ao fim de dois meses o trocou por um outro jovem, quiçá mais treinado nas particulares manhas do amor adolescente. Diziam que isso quase o tinha levado ao suicídio, tendo-o traumatizado de tal forma que nunca mais se houvera aproximado de um qualquer rasto de beleza.

Era difícil de compreender, sem dúvida, e esta história melancólica e distante parecia resolver de certa forma a ansiedade que nos tomava a todos, sempre que o víamos, o maus belo dos homens sós daquele bar, entrar acompanhado pela última novidade dos horrores femininos. Vânia, Tânia, Luísa, Teresa, Armanda, Leopoldina (esta juntando ao pacote um nome também ele horrível), Ana Maria, Maria José, Alexandra… Um rol de tristezas para os nossos olhos.

Outra das histórias que se contavam sobre aquele belo e estranho personagem era a de uma Mariana ou Margarida que, aquando dos seus vinte e poucos anos, lhe teria roubado o coração. Era uma espécie de deusa grega, divinal nos seus traços de mais bela dos humanos. Um ano inteiro de um amor arrebatado que terminou, tristemente, numa noite em que o nosso amigo a interpelou beijando outro terráqueo, um ex-namorado do liceu.

Todos percebiam que tais desventuras só poderiam levar a um temor irreflectido perante as mulheres, mas daí a procurar só senhoras de pouco tranquilizante aspeto era um demasiado longo caminho. E por isso vivíamos perturbados com as infelizes escolhas daquele que designávamos como o mais belo dos nossos. Quando a madrugada já ia longa, eis que ele saía do canto escuro do bar, embalado na garrafa de whisky que se desfizera em seus lábios. Mesmo com todo aquele álcool, ele mantinha a pose de general, as costas direitas, o olhar penetrante. Belíssimo, sem dúvida. Saía do bar e vagueava pelas ruas molhadas. Sem que ninguém o percebesse, era esse amor pelo estranho que o fazia mover-se ainda.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Tiago

|Luís Filipe Cristóvão


Em memória de Tiago Alfredo Cristóvão

Escrevo esta história de memória, a maneira como se contam todas as boas histórias. Como não me lembro de muita coisa, e de muitas outras nem nunca soube o rasto, escrevo aquilo que lembro e imagino aquilo que ignoro. Quando nasceu, nos anos vinte do século de mil e novecentos, este rapaz não fazia ideia de que o seu nome, Tiago Alfredo Cristóvão, iria ser tão marcante para os homens da sua prole. Sem que o quisesse, os seus irmãos, o seu filho, os seus netos, passariam a ser reconhecidos todos por Tiago, uns por nomeação de nascimento, outros por ligação familiar. A mim, pessoalmente, sempre me soou particularmente confortável ser conhecido por este nome, uma maneira qualquer de ser identificado a um grupo, a uma tradição, uma forma agradável de ser reconhecido pelos outros. Para o bem e para o mal, os Tiagos sempre ficaram conhecidos por serem pessoas de bem, de trabalho, de concretização e de trabalho.

São várias as histórias que eu lembro do meu avô. E várias delas me assaltam a memória quando tento ver, lá para trás, quem ele foi. Nasceu no Casal da Parafuja, casal que para mim sempre foi só um moinho que eu via ao longe, porque nunca subi lá acima. Não sei bem porquê, sempre fiquei do caminho, em baixo, a ver, a imaginar, o que seria lá em cima o Casal da Parafuja. A história mais antiga que eu conheço dele, teria ele nove anos, e foi com o pai para Santa Cruz, numa viagem que demorava um dia inteiro, com o objectivo de trabalhar naquilo que sempre foi o seu trabalho, a construção. Sempre que ele falava desta história, os seus olhos pequenos voltavam aos nove anos assustados, que de manhã, ao acordar, sentindo o pai por longe, avistaram pela primeira vez o mar, e toda aquela confusão de branco, espuma e névoa, lhe pareceram casas a cair. Depois, como eu o imagino, cresceu com aquele ar de marialva que sempre trazia consigo. Começou a fumar aos doze anos, dizia sempre orgulhoso ao acender de cada cigarro, devia andar por bailes, com o cabelo penteado, puxado para trás, devia trabalhar que se fartava, empreiteiro de uns e outros, e assim foi fazendo a sua vida, ganhando experiência e confiança por entre aqueles que partilhavam o mesmo labor. Casou tarde, ao que sei, já perto ou depois dos trinta, e não me parece que alguma vez tenha o casamento retirado algum brilho aqueles olhos pequenos, travessos, que sempre voltavam aos nove anos.

Acho que sempre o tratei por tu. Lembro-me de o tratar só por Tiago, como se fosse um amigo do prédio ao lado, um colega da escola. Ele ia comigo ao futebol e nunca dizia de quem gostava, a não ser do Belenenses no ano em que foram campeões. Ele estava sempre nas obras e andava sempre com malandrices, fossem cassetes de anedotas, poster’s de miúdas, conversas daqui e dali. Nunca dizia o nome quando tocava à campainha. Era um “oi”, um “oi” esticado e sonoro que, mais que anúncio, era um grito de guerra que eu ouvia sempre que o escutava no intercomunicador. Ele permanecia calado e ria. Era um malandro encartado, que bebia o seu copo, que brincava com os talheres em cima dos pratos para marcar ritmos de cantigas. Era também o patrão implacável, sempre a marcar em cima, rabugento, mandão. Se alguma coisa fica em mim dele, é essa rabugice intrínseca de quem acha que sabe o que está a fazer (e ele, a maior parte das vezes, sabia) e quer que as coisas fiquem a seu jeito. Era fácil ser neto dele, era mesmo muito fácil, até porque ele nunca ficou velho, nunca ficou velho a sério até ter ficado velho demais.

É fácil gostar dos mortos. É fácil gostar dos mortos porque houve sempre coisas que ficaram por fazer, coisas que ficaram por dizer. Durante a vida, o meu avô Tiago não foi um homem fácil. Porque nunca se é fácil quando se sabe muito bem aquilo que se quer fazer. Sabe-se tão bem que se acaba por fazer a maior parte das coisas sozinho. E isso chateia e magoa os outros. Mas também, como todos aqueles que  se fazem sozinhos, o meu avô Tiago soube amar incondicionalmente aqueles que o rodeavam. E tenho a certeza que amou até aos últimos momentos. Não somos homens muito fortes, nós, os Tiagos. Andamos constantemente perdidos entre aquilo que achamos que tem que ser feito e aquilo que achamos que temos que fazer. A última construção do meu avô foi um sopro, um sopro que ele deu quando se atirou da vida abaixo. Partiu assim porque não há satisfação possível para um Tiago nesta terra. Vamos sempre fazer decididamente por nós aquilo que nos haverá no fim de nos fazer sentir sozinhos. Sozinhos com as ruínas de nós mesmos e com o amor que sentimos pelos outros.

É esse peso que sentimos nos pés hoje, ao sair daqui. Esse peso que nos acompanha em todos os dias da nossa vida. O primeiro Tiago, talvez o mais corajoso, talvez o mais descontraído, morreu. Já não temos um “oi” que nos ponha em sentido. Já não temos quem nos marque o ritmo das cantigas com os talheres. Já não temos o marialva de cigarro ao canto da boca. Já não teremos mais histórias para nos lembrarmos no futuro. Agora, só nos restamos a nós.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Quando o barco atracar no cais

|Luís Filipe Cristóvão


Luzia, se tu soubesses, tenho 46 anos, tenho 46 anos a mais, e vejo que cada dia passa mais depressa, sempre tão depressa, a cada dia que passa e eu a acordar de madrugada para ir para o trabalho, a acordar de madrugada sem uma ponta de sorriso esquecido no canto da boca, sempre a mesma rotina de fazer a barba, tomar banho, o café a correr, o cigarro mal apagado antes de entrar no autocarro, Luzia, dá-me vómitos, dá-me vómitos toda aquela gente, todas as manhã, Luzia, se tu soubesses.

Manuel, como te posso dizer, eu a acordar todas as manhãs e sem sentir que tenho um homem ao meu lado, eu a acordar todas as manhãs e a sentir-me mais velha que a minha mãe e a minha avó juntas, deus as tenha lá no céu, eu a acordar todas as manhãs, e sempre a pensar, como será o dia de hoje, o que me poderá acontecer, todas as manhãs, e a saber sempre, sempre, que não há nada de novo, nunca há nada de novo, Manuel, tenho 41 anos, tenho a idade das actrizes do cinema, mas para mim ninguém olha, por mim, ao que parece, já ninguém se interessa.

Luzia, se tu soubesses, oito horas por dia naquele escritório é uma eternidade, oito horas por dia ali fechado, sem uma cara diferente, sem uma voz lavada, sem uma vista diferente pela janela, oito horas e o rádio sempre na renascença, oito horas por dia e sempre as mesmas notícias, ali fechado, Luzia, se tu soubesses, tenho 46 anos, tenho 46 anos a mais, e oito horas depois de estar ali fechado, o cigarro mal apagado antes de entrar no autocarro, Luzia, dá-me vómitos, dá-me vómitos toda aquela gente, todo aquele suor, Luzia, oito horas fechado no escritório.

Manuel, como te posso dizer, os putos saem contigo de manhã e voltam contigo à noite, é sempre comprar pão e tomar um café, é sempre Fátima Lopes, Sofia Alves, é sempre enganar a fome com qualquer coisa, é sempre passar a ferro, fazer as camas, pensar no jantar, telenovela, telenovelas, pensar no jantar, o que vão eles querer hoje, telenovela, telenovelas, Manuel, tenho 41 anos, tenho a idade das actrizes, eu fico em casa a ver telenovelas, muitos dias nem sei se faz sol ou se chove, telenovela, telenovelas, eu tenho a idade das actrizes.

Luzia, se tu soubesses, chego a casa sempre tão enojado, chego a casa sempre tão doente, e os putos que não se calam, e telenovela na merda da televisão, nem sequer consigo ler o jornal direito, nem sequer consigo pensar limpo, os putos não se calam, a merda da televisão na telenovela, Luzia, se tu soubesses, e eu que nunca te digo nada, chego a casa tão enojado, a merda da televisão, eu nunca te digo nada, Luzia, se tu soubesses, que não há nada para te dizer quando um gajo chega a casa tão enojado, a merda da televisão e os putos que não se calam.

Manuel, como te posso dizer, o jantar na mesa e tudo pronto sempre a horas, já tinha tantas saudades vossas, ver-vos, ver-nos todos juntos, já tinha tantas saudades vossas, e tu calado e os putos aos gritos, o jantar na mesa e eu ali, Manuel, porque não falas, eu queria saber quem viste hoje, porque não falas, eu queria saber o que fizeste hoje, eu queria saber porque não me beijas, eu queria saber porque não te agarras a mim e choras comigo, Manuel, eu tenho 41 anos, eu queria saber porque é que eu tenho a idade das actrizes e tu nem para chorar me olhas, Manuel, como te posso dizer.

Luzia, quando é de noite, tenho medo que o dia volte, tenho medo de voltar a ter tudo outra vez, voltar a repetir tudo outra vez, Luzia, quando é de noite, eu deito-me envergonhado, quando é de noite, espero que tu adormeças e choro devagarinho para não me ouvires, quando é de noite, Luzia, se tu soubesses, eu tenho 46 anos e só oiço a voz do meu pai aos berros, os homens não choram, Luzia, eu tenho 46 anos e espero que tu adormeças para chorar devagarinho.

Manuel, quando estou na cama é ainda pior, pensar na alegria que tivemos quando compramos esta cama, a cama dos nossos sonhos, a cama que foi do nosso amor, e agora, Manuel, a cada noite que passa, Manuel, ficamos cada vez mais longe, Manuel, e eu fecho os olhos com tanta força, com tanta pressa de adormecer para não me lembrar que estou ali, Manuel, como te posso dizer, depois parece-me que te oiço a chorar, Manuel, para que há uma criança na cama deitada, a chorar no teu lugar, e eu fecho os olhos com mais força, e ainda com mais força, para já não estar ali quando conseguir finalmente adormecer.

Luzia, se tu soubesses, trago-te para passear neste fim-de-semana, trago-te a passear para veres o mar, para sentires a brisa quando a janela do carro aberta, trago-te para a rua para ver se limpo a cabeça, para ver se me esqueço, deixo os putos lá em casa para eles gritarem à vontade e trago-te para veres o mar, sabes, é bonito vermos o mar juntos, sabes, eu gosto de vir ver o mar, ver os outros carros com gente nova, sabes, e vê-los aos beijos, agarrados, e vê-los aos beijos, agarrados, sabes, Luzia, e acho que quando te trago a ver o mar, sou um puto outra vez, sabes, eu trago-te a ver o mar, acendo um cigarro, e fico a ver a malta nova nos outros carros aos beijos, sabes, nos outros carros a fazer o que eu queria fazer, sabes, se eu não tivesse 46 anos a mais, e parece que fico com a cabeça lavada, sabes, trago-te a passar neste fim-de-semana.

Manuel, tu sempre calado e o mesmo passeio de domingo à tarde, o mesmo relato de futebol, o mesmo trajecto, o mesmo vento, o mesmo mar, como te posso dizer, eu leio uma revista, e deixo-me ficar, pelo menos é rua, pelo menos é um ar, apesar do mesmo ar de todos os domingos, como te posso dizer, eu tenho 41 anos, a idade das actrizes, e tu trazes-me para junto ao mar para olhares para os outros carros, para olhares para a malta nova aos beijos, e acendes um cigarro, eu sei que isso te dá prazer, Manuel, mas eu tenho 41 anos, como te posso dizer, tenho a idade das actrizes, e apesar do vento, e apesar do ar, e apesar do mar, eu tenho 41 anos, Manuel, e já não te consigo aguentar.