segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sempre o teu nome

| Ruth Ministro


Há o teu nome
imenso e inconfessável
como um pecado.

Há o teu nome
que não digo
e que me repete.

O teu nome
sempre o teu nome
o teu nome apenas.

Não sei a claridade
sei o teu nome.

Na minha boca
a noite arde em permanência.

Ruth Ministro - Apresentação

Ruth Ministro, psicóloga pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, nasceu em Lisboa no ano de 1981. Desde sempre apaixonada pelas letras, começou a partilhar as suas palavras com o público em 2006, através do blogue http://a-minha-nuvem.blogspot.com. Em 2008 é convidada a participar na colectânea “Nas Águas do Verso: 100 Autores – 100 Poemas”, lançando o seu primeiro livro de poesia “A Minha Nuvem” em 2009, quando é descoberta pela Edita-Me Editora. O seu segundo livro de poemas, “Dos Intervalos Das Horas”, é publicado em 2011 pela mesma editora. Os seus textos já foram vestidos por vozes de programas de rádio, pintados por artistas plásticos em exposições colectivas intertextuais e interpretados em tertúlias e sessões poéticas por quem por eles se apaixonou. Fernando Contumélias, prefaciador do seu segundo livro, descreveu-a como uma mulher corajosa: “é preciso ter coragem para escrever poesia. Porque não há ‘arte’ que poupe tão pouco o lado mais íntimo de quem a escreve, por mais que ‘finjam’ os poetas e poetisas... Apesar da relativa juventude, Ruth Ministro tem a ousadia de se aventurar pelo imenso território das emoções humanas e a maturidade espantosa para se sair bem.”, mas talvez a melhor forma de a definir seja chamá-la de eterna sonhadora.

domingo, 5 de maio de 2013

Mesa do Canto – Uma memória de cafés

|Alexandra Malheiro


Escrevo-vos, hoje, do Café Imperial, não o do Porto, de 1936, com a águia em bronze gigante, de Henrique Moreira, encimando a porta giratória, com profusão de espelhos e prateados e um longo balcão ao fundo e o vitral Art Déco de Leon, até porque esse velho Imperial tem hoje, sobreposta à sua pujante arquitectura, a decoração pastilhada do MacDonalds em que se transformou há vários anos, com isso descaracterizando por completo o café que antes fora. Este de onde vos escrevo é, também ele, Art Déco com colunas de inspiração oriental e motivos animais, com altos-relevos e espelhos largos e encontra-se em Praga sendo um dos vários cafés praguenses a não perder. Escreveu Garrett que o viajante experimentado e culto chegando a um café, em qualquer lugar que visitasse, facilmente reconheceria onde se encontrava pelos seus usos, costumes, pelo aspecto e pela fauna que nele achasse. Fiz, pois, como Garrett e, em chegando a Praga para umas curtas férias, tratei de assentar arraiais num dos seus cafés para dele fazer a minha mesa do canto. Acomodo a meu lado “Imagens de Praga”, uma espécie de livro de viagem em bom, do irlandês John Banville, recentemente editado pela ASA. Nada como um livro e um café para nos contextualizarmos com o lugar que visitamos. A “ideia de europa” de Steiner desenha-se através do mapa das cafetarias. E eu dou por mim, uma vez mais, a resvalar para a memória pessoal dos meus cafés.

sábado, 4 de maio de 2013

Sulscrito nº 4

|Fernando Esteves Pinto




Numa relação de amizade a simpatia é um maneirismo. Um estilo ou afectação que apenas serve para decorar um modo de ser que dificilmente encontra correspondência na pessoa que se deseja conquistar e torná-la nossa amiga. Muitos são os amigos simpáticos e raros os que sentimos que sejam honestos, sinceros e verdadeiros. Na minha ligação de amizade com o Rui Costa, a recompensa maior foi descobrir nele a pessoa autêntica que soube dividir comigo, correcta e lealmente, a fortuna do seu carácter. A ele estarei sempre grato, tanto pelos momentos que passámos juntos, como pelas emoções vividas que persistem agora na memória. 

Posso não editar outro sulscrito, e se assim for, esta edição nunca será a última, pois estou convicto de que não há um fim para recordar um amigo, cabendo a todos os que nesta publicação prestaram a sua homenagem continuar a testemunhar a vida e a obra do Rui – obra literária que não se esgota nos livros publicados.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Constantina “A Esmagadora”

|Kateb Yacine

A rocha, a enorme rocha três vezes desventrada pela torrente infatigável que se enterrava em batimentos sonoros, escavando obstinadamente o triplo inferno com a sua força perdida, fora do leito sempre desfeito, sem longevidade suficiente para chegar ao seu sepulcro de blocos derrubados: cemitério destruído onde a torrente nunca viera entregar a alma, reanimada muito mais acima em cascatas inextinguíveis, afundadas em funil, as únicas visíveis das duas pontes lançadas sobre o Kudia, da ravina onde o uede não passava de um ruído de queda repercutido na sucessão de abismos, ruído de águas que nenhuma caldeira ou bacia continha, sussurro surdo sem fim, sem origem, cobrindo o estrondo furioso da máquina cuja velocidade decrescia contudo, atravessando restos de verdura, pradarias ainda interditas ao gado, irradiadas sob a ligeira crosta de gelo, florestas de figueiras nuas e disformes, de alfarrobeiras, de cepas em desuso, de laranjais rectilíneos, destacamentos de romanzeiras, de acácias, de nogueiras, ravinas de nespereiras e de carvalhos até à proximidade do caos brumoso e maciço (...)

Nedjma (Tricontinental Editora, 1987)


Kateb Yacine (Yacine de nome e Kateb de apelido) foi um romancista, poeta e dramaturgo argelino nascido na cidade de Constantina, na Argélia, no dia 2 de Agosto de 1929. A sua obra tem vindo a ser divulgada, em português, num blogue dirigido por António Quadros Ferro e com a colaboração recente de Melissa Scanhola. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Mictório de Duchamp


|Sid Summers

Eu não acredito na maioria das pessoas que se dizem artistas. Mas no fundo, quem deposita confiança nessa laia de gente estranha? Entretanto, eu acredito na arte. Eu acredito na dorida criação humana chamada miséria. Fui surpreendido mais cedo por uma de suas obras num viaduto. Um homem velho sentado torto, sua mão estendida de pedinte em harmonia com sua cabeça pendente coberta por cabelos brancos sujos. Suas discrepantes solas de sapatos descoladas. Duas línguas obscenas e potencialmente furiosas projetadas, expondo buracos que mais pareciam cus nos seus calçados rotos, mas vivos. Bastava um ready-made dadaísta do Duchamp. Senhores, eu confesso... Eu só acredito em quem sente frio. Por dentro ou por fora. Eu só acredito em quem se desespera.



Sid Summers é um autor brasileiro, com obra dispersa pela rede. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Não vá o maio, de maduro, cair


|Editorial

Quatro meses inteiros a fazer revista e olhar para a frente, ver um ano inteiro a chegar e a pesar, respirar fundo, seguir em frente, mais um passo, mais um passo, um passo de cada vez. Quatro meses inteiros a fazer revista, a gerir as frustrações de cada vida, as distâncias, os desempregos, os trabalhos pesados, os silenciosos empregos, as chamadas de surpresa. Quatro meses inteiros a fazer vida, todos os dias.

E para mudar de agulha, saber que na literatura encontramos uma janela para um mundo que se explica melhor do que o nosso. Daí a importância de ler quem escrever por nós. Quem sente com as letras e constrói de palavras paredes, casas inteiras. E para mudar de agulha, abrir portas e convidar mais gente, para que o mundo se faça inteiro de vários olhares, sensações, mãos que escrevem, mais do que no papel, no corpo.

Quatro meses inteiros e muitos pais, pelo passado e pelo futuro. Porque abril mal se cumpriu e o maio não vá, de maduro, cair. Aprender a resistir mesmo que sem ações – porque ação já é esta a de respirar num espaço onde convidamos quem venha respirar connosco. Sejam palavras, sejam olhares, sejam sensações. Começar mais um mês, sob o signo do trabalhador, essa espécie em vias de extinção, essa espécie em revolução constante. E não parar nunca de lutar.