domingo, 21 de abril de 2013

Escrever para suprir

|Andreia C. Faria




A leitura e a escrita como tarefas em função das quais organizar os dias surgem muito cedo, mais fruto das circunstâncias do que de uma opção consciente. Ler e escrever (melhor do que a maioria dos miúdos o faria então) começou por ser, aos 8, 9 anos, a minha forma de exercer poder. De impressionar. De me situar perante mim própria e perante os outros.

Se tivesse sido uma princesinha, uma rainha da beleza pré-púbere, se tivesse oportunidade de andar ao ar livre em vez de passar horas fechada num pequeno apartamento, certamente não teria começado a escrever - teria coisas melhores para fazer. Escrevo porque não sou uma estrela rock, não sou campeã de ténis, não sou fotógrafa ou actriz ou realizadora de videoclips. Escrevo porque a escrita é o que me sobra para encenar o corpo.

A escrita nasce da solidão. Uma criança é como um gato - altiva da sua solidão, sem memória de um entendimento que não seja consigo própria. Depois cresce e apaixona-se e escreve para retornar a esse estado edénico da primeira solidão.

sábado, 20 de abril de 2013

Basta saber que por aqui se escoa o sangue para me precaver

|Andreia C. Faria



Basta saber que por aqui se escoa o sangue para me precaver



Já me conhecem
as mulheres, vêm ter comigo se nas ancas
não lhes cabe a dor. E eu troco

por amor o trabalho de sublimação, o invisível
transbordado por um fio, eu ensaio a cada noite
os quinze minutos do seu consentimento. É só este

o afecto que me guardam, reunir em seco
o sangue, o simulacro, e trazê-lo por cisternas
e raízes pelas coxas, vindo de longe, de fora
do corpo, unindo-me a elas no que se esvai

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ali sentadas, na areia

|Andreia C. Faria


Ali sentadas, na areia
em frente ao mar, aguardando
que um casal de idosos acabasse de passar,
não nos beijámos
Tão próximas, medíamos
o cansaço, as fúrias sazonadas, a impura
frase com que a pele rasura
a juventude

Desfeita a onda, mais nenhuma
comoção. E só volto a lembrar
a recusa que nos deu início
se no chão da sala encontro
o teu leve estremecer
de peixe posto vivo onde
não há água ou aridez
que a morte traga
Os meus dedos investem
a tautologia do choque,
uma boca fechada

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O meu pai falava em francês para estranhar a língua

|Andreia C. Faria


O meu pai falava em francês para estranhar a língua
Fazia os mais esquivos versos que eu já tinha ouvido
à boca da mulher roufenha que o meu pai
também era. Em acessos regulares escoava-os
a tosse ou caíam-lhe dos punhos na mesa de jantar
Rendilhados, animais polutos
comíamo-los, entretecíamos no estômago
um filho de carne

*

O meu pai era um homem grande
mas uma mulher pequena, e assim cambaleava
severamente no terraço onde os outros homens
obsidiavam pedras, excrementos, os mínimos muros
que o faziam tropeçar. O meu pai amava
um rapaz moreno como lixívia, um negro
que em nossa casa se sentava, recobrindo com óculos escuros
as vantagens do trabalho infértil
Todos os dias o meu pai lhe aparecia,
a mulher estremunhada, e rarefeito no vidro repetia
os seus versos de amante imerso
A langue, na condição de velha excêntrica,
na sua lascívia infantil, fazia a vez
do falso pudor, desabotoava o sexo
e com dedos anelares propulsava a escuridão

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dormíamos de janela aberta

|Andreia C. Faria


Dormíamos de janela aberta
e aliada ao sangue a lua
era véu que nos retardava a face
Desavinda da terra
montavas à sombra de estacas
o corpo
onde havia de passar o meu
modesto, incontuso
afeiçoava a água em espirais

Entre nós não havia lisonja
e parando os gestos revelavam
o pó comestível da febre
A doença era o nosso sintoma
Se te amava era sem sono
adiando a noite inteira
a comprida dormência dos membros
no nosso futuro andamento
fantasmas

terça-feira, 16 de abril de 2013

Flúor

|Andreia C. Faria


Agradeço-te, mãe, o flúor
que até aos seis anos tomei em comprimidos
Serve de herança a melhor dentição
Deste-me as falhas, também
o carácter, mero utensílio
da sorte com que encarar os dias
o silvar nas frinchas
da fala
as dores
e o ranger da criação

Se pela boca começasse
a alma a abrir-se e por tal paisagem
divisasse eu primeiro
a oclusão do céu deixando
intacta na terra
a geração dos vivos
poderia (e tu pela raiz)
salvar-me antes mesmo
de aprender a ler

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O último banho de mar depôs-me na pele

|Andreia C. Faria


O último banho de mar depôs-me na pele
um caracter neutro, balsâmico, decifrado pela infância
Um frio súbito, restituído de sentidos

Ainda hoje a felicidade me vem de dentro como uma traição

Vi a minha pele à transparência
e mesmo a ondulação, transfigurando, dava-lhe
a integridade do que se desfralda a amar. O mar
não me esperava, a comparência de uma antiga
onda

Quanto mais esparso o sexo, mais
espessa fica a pele, e em pouco tempo
seria o oceano um olho cego, a água densa
de uma esfera, um gigante dobrado no seu leito de basalto