|Manuel A. Domingos
Parece que andava na segunda classe quando escrevi o primeiro texto poético, segundo a minha mãe, e que tinha como tema a Primavera mais as andorinhas e os seus ninhos que faziam com os raminhos das árvores que traziam com cuidado nos seus biquinhos, não as árvores mas os seus raminhos, muito fininhos e pequeninos e todos esses lugares-comuns que é costume escrever quando andamos na segunda classe e se escreve o primeiro texto poético, segundo a nossa mãe, começando a olhar para as coisas e para o mundo de um modo diferente, sem saber que a maneira como começamos a olhar para as coisas e para o mundo vai para sempre acompanhar-nos, mesmo que não seja Primavera nem haja andorinhas a voar com raminhos de árvores nos biquinhos-fininhos-pequeninos, apesar de tentarmos todos os dias fazer o esforço de ver uma certa Primavera em tudo, nem que seja na renovação da Cartão de Condução e na fotografia que tirámos no photomaton que está ao nosso dispor mesmo ali perto: por apenas cinco euros quatro fotografias tipo passe: mas que nos deixa com umas olheiras fundas, a cara muito branca e porra que me esqueci de fazer a barba, pareço um presidiário, logo agora que até ando com melhor aspecto, eu, que nunca tive bom aspecto, mas sempre muita aptidão para ficar com ar sério, demasiado sério para o gosto da minha mãe, que diz que escrevi o primeiro texto poético quando andava na segunda classe, sobre a Primaveras mais os biquinhos-fininhos-pequeninos das andorinhas com raminhos de árvores para fazerem os ninhos nos beirais dos telhados ou no alto de uma árvore qualquer, embora eu não tenha grande certeza sobre isso, mas pouco importa pois chegou a Primavera e eu depois esclareço essa dúvida.
domingo, 7 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
Sex Machine
|Eliana Castro
O Alemão era uma afronta. Foi presente da Cássia. Só podia. Era uma afronta com 22 centímetros de comprimento, 5 centímetros de diâmetro. Era azulão e tinha umas pérolas giratórias na ponta. Assim que abri o embrulho achei feio. Não. Primeiro nem achei nada. Fiquei foi é com muita raiva da Cássia. Me trazer um presente de grego daqueles? Onde é que iria meter aquilo, hein? Fiquei ofendida. Dois anos separada, no maior luto, duas filhas endemoniadas, sem tempo para pensar em trepar. Mas a Cássia não precisava esfregar aquela minha situação periclitante na cara, precisava? Não. Mas fez.
Trouxe o Alemão dentro de uma caixa embrulhada com papel cor de rosa com bolinhas azuis. Para combinar com ele, ué, disse, a cínica que, ao ver que eu estava avermelhando de raiva, saiu correndo sem nem me dar tempo de mandar levar aquele pedaço de mau caminho para o raio que a partisse – ao meio. As meninas ainda estavam na escola. Fiquei um tempo com aquele troção plantado na mesa de mármore branca, presente de casamento dos meus pais.
O Alemão era uma afronta. Foi presente da Cássia. Só podia. Era uma afronta com 22 centímetros de comprimento, 5 centímetros de diâmetro. Era azulão e tinha umas pérolas giratórias na ponta. Assim que abri o embrulho achei feio. Não. Primeiro nem achei nada. Fiquei foi é com muita raiva da Cássia. Me trazer um presente de grego daqueles? Onde é que iria meter aquilo, hein? Fiquei ofendida. Dois anos separada, no maior luto, duas filhas endemoniadas, sem tempo para pensar em trepar. Mas a Cássia não precisava esfregar aquela minha situação periclitante na cara, precisava? Não. Mas fez.
Trouxe o Alemão dentro de uma caixa embrulhada com papel cor de rosa com bolinhas azuis. Para combinar com ele, ué, disse, a cínica que, ao ver que eu estava avermelhando de raiva, saiu correndo sem nem me dar tempo de mandar levar aquele pedaço de mau caminho para o raio que a partisse – ao meio. As meninas ainda estavam na escola. Fiquei um tempo com aquele troção plantado na mesa de mármore branca, presente de casamento dos meus pais.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Três poemas de Alexandre Homem Dual
|Alexandre Homem Dual
A Dança dos Homens
Sob o manto marmóreo do sonho
flui a torrente da realidade líquida,
fervilha o excesso que queima a pele
e a rasga de dentro para fora.
Contemple-se: uma pantera e um tigre
deitados - num abraço num beijo num orgasmo -
numa cama de flores e de grinaldas,
mergulhando no esquecimento de si mesmos.
E como as feras o homem despido
cantando e dançando consigo mesmo (e com os deuses) -
porque todos os homens são ele mesmo (e são os deuses) -
deixa-se embriagar pela renovação da primavera.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
O outro lado da chuva
|Clara Henriques
Emprestei-te à vida
e foi sem querer.
Esqueci-me que as manhãs seriam
depois desertas
que não mais o banal
e o selecto.
Emprestei-te ao
décimo
andar
da solidão,
esquecendo-me de quem mora
nos patamares
do silêncio.
Entreguei-nos à cidade
em magnólias ainda
por acontecer.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Primavera
|Alexandra Malheiro
Falo-te do tempo e da viagem,
da oxidação dos dias
e da fuligem no rosto que o tempo nos deposita.
Ultimamente
tem-me faltado a Primavera,
percebo isso quando
ao olhar-te
nenhum jacarandá se abriu em flor.
Falo-te do tempo e da viagem,
da oxidação dos dias
e da fuligem no rosto que o tempo nos deposita.
Ultimamente
tem-me faltado a Primavera,
percebo isso quando
ao olhar-te
nenhum jacarandá se abriu em flor.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Está provado
|Miguel Godinho
Está provado
que as dificuldades conjunturais
podem facilmente
conduzir-nos à poesia,
à modernidade
em todo o seu esplendor
está provado
que há verdade
nas políticas comuns
na austeridade
do enquadramento
está provada
a utilidade dos baldes
cheios de estrume
distribuídos pelas múltiplas
salas de reunião
está provado
que se concretizam
as previsões de crescimento
nos horóscopos
e nos telejornais
está provado
que eu sempre quis
ser um euro-cidadão
levar uma bofetada económica
ver Paris à noite, embebedar-me
nos bistrôs do quartier-latin
Está provado
que as dificuldades conjunturais
podem facilmente
conduzir-nos à poesia,
à modernidade
em todo o seu esplendor
está provado
que há verdade
nas políticas comuns
na austeridade
do enquadramento
está provada
a utilidade dos baldes
cheios de estrume
distribuídos pelas múltiplas
salas de reunião
está provado
que se concretizam
as previsões de crescimento
nos horóscopos
e nos telejornais
está provado
que eu sempre quis
ser um euro-cidadão
levar uma bofetada económica
ver Paris à noite, embebedar-me
nos bistrôs do quartier-latin
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Isto não é o dia das mentiras
|Editorial
Não estamos no tempo de reescrever a história. Na verdade, nem sequer na disposição. E se bem se entenderia que um movimento poético tivesse, no seu seio, os seus motores teóricos, não parece aceitável que o movimento se faça, apenas, pela oportunidade de quem está arrumado na vizinhança. Essa é a condenação de quase todos os que aspiram a ser grandes: não resistem a ver-se rodeados de pequenos bajuladores que se arrastam pelas suas costas em busca da luz do sol.
Não estamos no tempo de nos determos numa caixa. Na verdade, nunca foi a nossa intenção. Daí que a procura de contraditórios sempre tenha feito o caminho deste espaço. Porque abrir portas faz parte da nossa forma de estar. Porque encontrar outras vozes é, também, uma forma de estar vivo. Porque, finalmente, é nessa diversidade que se encontram as melhores razões para continuarmos a fazer o que fazemos: não desistir nunca do que é humano no trabalho das letras.
Não estamos, enfim, no tempo de nos fixarmos. Na verdade, evitamo-lo a todo o custo. Porque o contemporâneo tanto está numa cantiga de amigo, como numa letra de rap. Porque o nosso tempo tantas vezes surge na literatura clássica, de uma forma tão pungente como na página de um qualquer jornal. Porque não ignoramos o curso da língua e da literatura que nos trouxe até aqui, até hoje, até ao agora. Nós sabemos. É isso que nos apetece dizer perante aqueles que insistem em tempos que não são, claramente, os nossos. Façam vocês a festa que quiserem, nós sabemos.
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