sábado, 23 de março de 2013

E o anjo veio e disse-lhe:

|Manuel A. Domingos

a vida que escolheste
é de pedras pelo caminho
nada de bom virá dela
e todas as recompensas
serão adiadas

por isso pensa melhor:
ainda estás a tempo
de desistir


in Mapa (2008)






sexta-feira, 22 de março de 2013

Soneto

|Manuel A. Domingos


tens o vício
de não fumar
não andas envolta
num poético

halo de fumo
não deixas
marcas de bâton
nas beatas

dos cinzeiros
lá de casa
esse teu hábito

anda a custar-
-me alguns
versos


in Mapa (2008)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Não adianta

|Manuel A. Domingos


Não adianta
pensar nas coisas
na sua mecânica

por menos caiu
Tróia e Jericó
viu as suas muralhas
no chão

Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos

Sai à rua

Podes nem
acreditar

há vida
para lá de tudo
isto

Mas caminha
com cuidado

não vá
uma andorinha
cagar-te no ombro


in Teorias (2011)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Que deve um homem fazer

|Manuel A. Domingos


Que deve
um homem fazer
quando lá fora
chove e o tempo
é apenas a lisura
do tampo
da mesa onde apoio
os braços
e a mão
procura a caneta?

Algures no caminho
ficou a noite
a veia entupida
pelo pó dos dias
noites mal dormidas
mais o carro
que decide
de manhã não
arrancar

e são oito horas

estás atrasado
para o emprego

Mas não te preocupes:
ainda tens

o teu cinismo


in Teorias (2011)

terça-feira, 19 de março de 2013

Organizo o tempo

|Manuel A. Domingos


Organizo o tempo
da melhor maneira possível
Trinta e três anos
nas mãos é pouca coisa

é a única coisa
Tenho a idade de Cristo
na cruz mas não procuro
a santidade

não dou para mártir
Trinta e três anos
um ou outro cabelo branco
Dizem que dá charme

A mim apenas
me fazem sentir
um pouco mais velho


in Penumbra (2012)

segunda-feira, 18 de março de 2013

A vida como a conheço

|Manuel A. Domingos


A vida como a conheço
nunca foi madrasta
Não tive pais castradores
da identidade

ampararam antes
as quedas e debaixo
do cu teimaram
em colocar almofadas

para não me magoar
De resto sempre tive
tudo aquilo que pedi
Talvez um ou outro amor

pouco correspondido
Como explicar então
esta tendência para o poético?



in Penumbra (2012)

domingo, 17 de março de 2013

A aposta

Recensão do livro O Fardo do Homem Branco de Madalena de Castro Campos

|Luís Filipe Cristóvão

O que se conhecia de Madalena de Castro Campos, que tem vindo a publicar no blogue les cahiers de la mariée, já dava o tom daquilo que se encontra n’ O Fardo do Homem Branco, o seu primeiro livro, publicado pela açoriana Companhia das Ilhas. Uma poesia fortemente cínica, no modo como a partir de uma personagem feminina vai desconstruindo o marialvismo ainda latente na cultura portuguesa. A utilização, no título, da referência a Rudyard Kipling, acaba por dar um tom pesadamente irónico ao que encontramos dentro deste pequeno volume.