terça-feira, 19 de março de 2013

Organizo o tempo

|Manuel A. Domingos


Organizo o tempo
da melhor maneira possível
Trinta e três anos
nas mãos é pouca coisa

é a única coisa
Tenho a idade de Cristo
na cruz mas não procuro
a santidade

não dou para mártir
Trinta e três anos
um ou outro cabelo branco
Dizem que dá charme

A mim apenas
me fazem sentir
um pouco mais velho


in Penumbra (2012)

segunda-feira, 18 de março de 2013

A vida como a conheço

|Manuel A. Domingos


A vida como a conheço
nunca foi madrasta
Não tive pais castradores
da identidade

ampararam antes
as quedas e debaixo
do cu teimaram
em colocar almofadas

para não me magoar
De resto sempre tive
tudo aquilo que pedi
Talvez um ou outro amor

pouco correspondido
Como explicar então
esta tendência para o poético?



in Penumbra (2012)

domingo, 17 de março de 2013

A aposta

Recensão do livro O Fardo do Homem Branco de Madalena de Castro Campos

|Luís Filipe Cristóvão

O que se conhecia de Madalena de Castro Campos, que tem vindo a publicar no blogue les cahiers de la mariée, já dava o tom daquilo que se encontra n’ O Fardo do Homem Branco, o seu primeiro livro, publicado pela açoriana Companhia das Ilhas. Uma poesia fortemente cínica, no modo como a partir de uma personagem feminina vai desconstruindo o marialvismo ainda latente na cultura portuguesa. A utilização, no título, da referência a Rudyard Kipling, acaba por dar um tom pesadamente irónico ao que encontramos dentro deste pequeno volume.

sábado, 16 de março de 2013

janis / ter e nom ter

|Susana Sánchez Aríns

janis

através da agulha enfias
bessie smith
através da agulha costuras
pérolas de dor
através da agulha sangras
cantos no bordel

quem o [micro] fuso che entregou
injectou com ele o veleno

heroína
foi o fio

uma bela adormecida
o desenho do bordado

sexta-feira, 15 de março de 2013

das belas artes e outros poemas

|Susana Sánchez Aríns


das belas artes

[dizem que são sete as belas artes: pintura, escultura, dança, literatura, arquitetura, música e cinema. dizem.]


koré

por eu ser em pedra dizes-me hierática

envolveita em pele máguas bostelas
esqueces que a mármore nunca cicatriza

quinta-feira, 14 de março de 2013

Um pouco fora do lugar


Entrevista a Susana Sánchez Aríns – parte dois

|Eduardo Estevez



 Logo interessa-me saber se, para além dos propósitos concretos de cada livro, há na tua obra uma intencionalidade mais global. Pergunto-te com isto em concreto pelas tuas preocupações vitais (o papel da mulher na construção do discurso, a ideia ou as ideias de nação, este tipo de coisas) mas também por como vês o teu papel ou o papel da tua escrita no tempo que lhe toca desenvolver-se.

Sou assim tão ingénua que ainda, apesar dos tempos que estamos a viver, acredito na possibilidade de deixar um mundo melhor para as gerações vindouras.
A terra da que se alimentam as minhas raízes foi semeada, irrigada e estercada por outras pessoas, algumas sabidas, a maioria anónimas. Deram forma a uma língua, uma cultura, uma comunidade. Língua, cultura e comunidade que hoje estão em perigo de extinção. Ao tempo, tocou-me em sorte nascer mulher, mas o acaso colocou-me numa região do planeta onde a questão de género implica menos perigos: pude estudar, sou uma pessoa independente social e economicamente e posso erguer a voz sem medo da represália.

quarta-feira, 13 de março de 2013

sessão vermu

|Susana Sánchez Aríns



uma roda no bordo da copa
uma olhada ás parelhas que dançam

o saibo amargo do aperitivo







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