|Alexandra Malheiro
Agora os dias são mais curtos,
não sei se pela força do calendário, a aproximação da Invernia, se por nos
teres deixado assim, tão desavisadamente, a olhar o vazio, o buraco negro por
onde partiram as palavras. Levaste-as contigo, decerto.
Agora que aqui não estás, o que
dizer (ou pensar, que sei eu?) sobre a vaga de frio que vem com o Outono, da
gramática que nos falta porque nos faltas, dos poemas todos que ainda estão por
escrever?
Agora que a cidade sussurra a tua
ausência, as bibliotecas choram-te em silêncio, “porque o resto é silêncio (que resto?)”, elas sabem que não
voltarás a dar nome às palavras, nem voltarás a abrir-lhes os livros, que nem
Milne, nem Borges nem Céline te trarão
de volta dos mortos agora que talvez tenhas achado “um
lugar onde pousar a cabeça”.