quarta-feira, 6 de março de 2013

Um poeta pelos pulmões


|Alexandra Malheiro

Agora os dias são mais curtos, não sei se pela força do calendário, a aproximação da Invernia, se por nos teres deixado assim, tão desavisadamente, a olhar o vazio, o buraco negro por onde partiram as palavras. Levaste-as contigo, decerto.

Agora que aqui não estás, o que dizer (ou pensar, que sei eu?) sobre a vaga de frio que vem com o Outono, da gramática que nos falta porque nos faltas, dos poemas todos que ainda estão por escrever?

Agora que a cidade sussurra a tua ausência, as bibliotecas choram-te em silêncio, “porque o resto é silêncio (que resto?)”, elas sabem que não voltarás a dar nome às palavras, nem voltarás a abrir-lhes os livros, que nem Milne, nem Borges nem Céline  te trarão de volta dos mortos agora que talvez tenhas achado  “um lugar onde pousar a cabeça”.

terça-feira, 5 de março de 2013

Manuel António Pina por...

|Manuel Jorge Marmelo


Ainda não sou capaz de dizer da falta que o Pina me faz. Quando me lembro dele, tantas vezes, fica-me um vazio por dentro, duro como uma pedra na barriga. Mas depois lembro-me do sorriso amável que ele tinha, das histórias que contava, dos gatos e dos serralheiros, dos taxistas e dos polícias, dos piropos que coleccionava — e sorrio também. Tenho a memória cheia de imagens do Pina, de frases do Pina, de exemplos do Pina, e só por causa disso creio que sou um homem melhor do que aqueles que não o conheceram, não o leram, não conversaram com ele. Quero ver se não me esqueço de não permitir que aquele que fui com vinte anos tenha razões para se envergonhar de mim. 

Tanto silêncio

|Manuel António Pina


Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
Formas indecisas
Procurando um eixo que
Lhes dê peso, um sentido capaz de conter
A sua inocência,
Uma voz (uma palavra) a que se prender
Antes de se despedaçarem
Contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz “eu”;
Se tiveres ouvidos suficientemente privados
Podes escutar o teu coração
Pulsando sob a palavra da tua existência,
Entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
Ouves o teu coração (as tuas palavras “o teu coração”)?


in Livro Primeiro

segunda-feira, 4 de março de 2013

Onde estás agora?


|Jorge Sousa Braga


  ao MAP



Onde estás agora
Oh meu amigo?
Nem dentro
Nem fora
Nem muito longe
Nem muito perto
Talvez nos primeiros
Raios da aurora
Talvez no deserto
No mais incerto
E improvável
Lugar

Onde estás agora
Oh meu amigo
Que não te oiço?
Talvez no fim
Da estrada
Envolto em poeira
Numa cadeira
De baloiço
Em frente ao grande
Tudo
Ou ao grande
Nada

domingo, 3 de março de 2013

Até ao osso


Recensão do livro Alto. de António Quadros Ferro

|Manuel A. Domingos



Falar de novas vozes e de nova-poesia e de novíssimos é chão que já deu uvas. Em primeiro lugar, e recorrendo a uma frase feita, já nada é novo, pois tudo foi inventado. Em segundo lugar, tivemos, nos últimos anos, estreias literárias em que o autor já não era novo (em idade), nem a sua poesia nova (em relação ao cânone): lembro, por exemplo, os nomes de Nuno Dempster e Soledade Santos. Mais dúbio é falar actualmente, e situando-nos apenas no meio literário, em geração. O que caracteriza afinal uma geração? O ano de nascimento? A década? O ano da estreia literária? As afinidades com este ou aquele grupo (que os movimentos há muito se perderam no tempo)? A questão é que, na realidade, não existe uma geração; existe, antes, a malta. É costume ouvir dizer “a malta da Averno” (e por acréscimo “a malta da Telhados de Vidro”), a “malta da Língua Morta” (e por acréscimo “a malta da Criatura”), a “malta da Deriva”, a “malta da Artefacto”, a “malta da Golpe D’Asa”, a “malta da 4águas”, a “malta da Sítio”, a malta para aqui e a malta para ali. Depois, há os outros.

sábado, 2 de março de 2013

Mesa do Canto – Sobre chuva miúda e a “memória possível” de Gomes Ferreira


|Alexandra Malheiro

Os dias vão correndo estranhos também no meu café. A chuva miúda teima em pegar-se aos vidros e, com ela, se esvai a nitidez para lá da montra. A mim mói-me por dentro este chuviscar constante.
Leio uma coisa aqui e outra ali, avulsas, sem conseguir traçar entre elas uma credível teia que possa alinhavar-se em crónica, uma que possa partilhar convosco. O Carnaval é um penumbroso tempo de chuva, esquecido de um feriado que nunca o foi bem, os foliões recalcitrantes guardam as fantasias nos guarda-fatos derivado ao mau tempo, enquanto palhaços bem vestidos continuam a perorar no horário nobre da televisão. O Papa renuncia ao seu pontificado enquanto no mesmo dia um fotógrafo capta um raio a atingir a Basílica de São Pedro. Na rua onde o meu café está instalado há vários indigentes mendigando uns trocados, a miséria é a de sempre.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Sítio na rua!


|Editorial

O mês de março marca o regresso da Sítio à rua. Sempre foi nossa vocação, para além da publicação, trabalhar na divulgação da literatura e dos seus autores. 2013 oferece-nos essa possibilidade, através da parceria com o Bairro dos Livros, no Porto. Mais detalhes sobre o evento irão sendo revelados durante a próxima semana, mas podem já marcar na vossa agenda o dia 9 de março de 2013.

Qual o sentido de irmos para a rua? Sobretudo o amor. O amor pelas palavras, o amor pela poesia, o amor pela personalidade daquele que é um dos grandes nomes da nossa literatura. Para além disso, a vontade de trazer mais gente a esta longa conversa sobre as letras. Muitos aceitaram já o nosso convite e enche-nos de orgulho que muitos mais possam chegar até nós, através da tertúlia onde estaremos.