quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

crispado como o mar deste inverno


|João Bentes

crispado como o mar deste inverno
lembro-me de coisas ferrugentas
anzóis algures na infância uma noção
de cansaço alegre que a maré põe no corpo
o que as ondas murmuram de poente em junho
o despontar do verde a ria calma o primeiro calor
a fertilidade anunciada na cor atmosférica que muda
o cheiro doce da lama numa manhã incendiada de sol
quando a primeira proa faz rumo a terra correr
correr pelas dunas a chamar a gente de casa em casa
levar o sebo e de joelhos na areia untar parais
pô-los todos de feição e olhar
olhar o gesto afoito de coisas que sempre foram
durante dias a excitação de barcos que avaram à praia
de ser pequeno e querer fazer tudo como um homem
o sangue do peixe espesso como água na seda
o impacto fulgurante das cores escamudas um bailado
escolher mesmo ali o que a ajuda leva e o que se vende

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Isto não é só p’ró inglês ver


Entrevista a João Bentes

|Luís Filipe Cristóvão

Aos 32 anos, depois de participação em duas antologias de poesia algarvia, João Bentes lança o seu primeiro livro em nome próprio.

É a oportunidade para encontrarmos a voz mais segura de um Algarve alternativo ao dos prospetos turísticos e, por consequência, ao Algarve lírico que inunda vários ramos da poesia portuguesa. João Bentes escolhe o título Odes para, num claro tom de ironia, conjugar Ginsberg e vários grandes poetas da literatura portuguesa, apresentar-nos, sem capas nem receios, um Algarve que vive e sobrevive, durante o ano inteiro, independentemente das nossas sedes de veraneantes.



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

porque a televisão poupa o pensar


|João Bentes

porque a televisão poupa o pensar
e o estado zela pela higiene dos dias
garante o teu futuro num curso superior
e vê se te endividas antes dos 30
com tudo o que precisas para a tua felicidade
cumpre as eternas 8 horas do teu dia
afoga as mágoas na cerveja com os teus amigos
cospe cospe rende-te encona-te e trabalha
acima de tudo está o interesse do país
o respeito e a bênção da família
a liberdade que nos trouxe a democracia
quando em 74 aquela coisa dos cravos
liberalizou o acesso ao ar condicionado


Odes, 4águas, 2013

João Bentes

João Bentes, trinta e dois anos, natural de Faro. Foi dinamizador do núcleo de literatura da A.R.C.A. – Associação Recreativa e Cultural do Algarve entre 2004 e 2008. Foi coordenador das actividades do grupo informal Sulscrito – Círculo literário do Algarve, entre 2005 e 2008, entre as quais se encontram a realização dos encontros internacionais de escritores Palavra Ibérica, em Faro e Vila Real de Santo António, em 2006 e 2007, respectivamente, e o publicação dos dois primeiros números da revista Sulscrito. Da sua obra poética está publicada uma pequena parte nas antologias de poesia Do solo ao sul (Arca, 2005) e Poema Poema (Punta Umbria, 2006), tendo também algumas participações dispersas em weblogs e revistas.

Acaba de lançar, já em 2013, o seu primeiro livro, Odes (4águas).

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Reflexões sobre a poesia


|João Camilo


I

Que pretende a poesia? Criar personagens interessantes, em particular e para começar o do próprio poeta, um indivíduo que “escreve poemas”, que através da escrita reivindica um lugar na galeria de “figuras” da nossa sociedade? Assim se sai do anonimato, é certo. Mas talvez se escreva poesia para reconstruir a experiência? Isto é: para fixar o que já se perdeu ou nunca chegou a ser; para pensar, divagar, contestar; para interrogar, protestar, explicar; para investigar, construir, destruir; para corrigir, reinventar - e assim por diante, a porta das hipóteses fica aberta.

Agindo assim contribui-se para a existência de um universo humano com sentido, o sentido que séculos de cultura e civilização foi elaborando. Ao escrever um poema situamo-nos e situamos os outros nesse universo cheio de sentido. Para o aperfeiçoar negando-o ou criticando-o, para nos interrogarmos sobre as razões da sua existência e sobre a sua coerência, para o confirmar e provar que o seu sentido tem sentido, um sentido que se pode discutir, sobre o qual se pode discorrer.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Gonçalo M. Tavares


|Manuel A. Domingos

De todos os novos autores de Língua Portuguesa, Gonçalo M. Tavares (1970) é aquele que melhor consolidou o seu lugar no panorama literário português. Em Portugal recebeu vários prémios, incluindo: Prémio LER/Millennium BCP (2004), Prémio José Saramago (2005) e Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores (2007). A nível internacional recebeu: o Prémio Portugal Telecom (Brasil, 2007), Prémio Internazionale Trieste (Itália, 2008), Prémio Belgrado Poesia (Sérvia, 2009). E foi ainda nomeado para o Prix Cévennes (França, 2009), que diz respeito ao prémio para o melhor romance europeu. Recebeu, ainda: Prémio Melhor narrativa Ficcional da Sociedade Portuguesa de Autores (2010), Prémio Especial de Imprensa Melhor Livro Ler/Booktailors (2010), Grande Prémio Romance e Novela da Associação Portuguesa de Autores (2011), Prémio Fernando Namora/Casino do Estoril, Melhor Livro Ficção (2011), Premiado no Portugal Telecom (Brasil, 2011), Prémio Fundação Inês de Castro. Para além de inúmeros livros publicados em dez anos (30 entre 2001 e 2011), que vão do romance e do conto à poesia, do ensaio ao teatro, Gonçalo M. Tavares cedo estabeleceu o seu percurso, isto é, o seu “programa” de escrita. Prova disso é a divisão feita pelo autor da sua obra publicada até à data: O Reino. Foquemos a nossa atenção neste último.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fazer uma revista


|Editorial

Fazer uma revista é abrir uma porta ao diálogo. Estar mais disponível para ouvir as vozes de quem escreve um pouco por cada canto do mundo. Ter a vontade de entender o que outros, como nós, vão desenvolvendo por aí. Saber de que matéria são realmente feitas as palavras.

Fazer uma revista é também acender uma luz sobre o que se vai fazendo nos livros. Abrir espaços para divulgar as novidades. Conhecer os autores. Aproximá-los de quem procura um livro para ler, sem o saber. Fazer nascer a curiosidade em quem procura uma companhia literária.

Para que isso aconteça, na Sítio, juntámos pessoas que estão espalhadas por Portugal, pela Galiza, pelo Brasil. As portas estão abertas para quem mais se quiser juntar a nós. A partir de cada lugar, os nossos colaboradores juntam autores e palavras para os levar até vocês, numa eterna partilha.

A cada mês, daremos destaque a autores – poetas, ficcionistas, fotógrafos, pintores – abrindo o nosso espaço na semana “Ecos” para uma outra variedade de colaboradores nos mostrar aquilo que vai produzindo. Em fevereiro, o foco centra-se num poeta fulminante, numa história fotografada e num encontro de escritores.

Venham connosco!