terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Uma viagem pela palavra


Entrevista a João Luís Barreto Guimarães

|Clara Henriques
    

Em toda a viagem há um momento de pausa. Um lugar onde se encosta a estrada já percorrida e se encara de frente o que há-de vir. Em todo o poema há uma vírgula por mudar, uma sílaba por fazer. Também João Luís Barreto Guimarães sentiu que era altura de parar, olhar e voltar a “re-parar”. É esta a viagem que surge agora relatada no seu mais recente livro “você está aqui”, que chega às livrarias no próximo dia 25.
À conversa com a Revista Sítio, o autor confessa estar numa fase em que se sente, cada vez mais, dentro da vida.
É talvez este o tempo de chegar.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Bicicleta para o infinito


|João Luís Barreto Guimarães

Ao
assentir os 40 subi a uma bicicleta das que
pedalo
pedalo
não saio do mesmo sítio. Já me disseram:
assim falho a experiência real (o
vento frio na face
o marulhar magnífico) mas
pedalando à janela sobre a marginal de Leça
gosto de os ver errar atrás de logros distintos
(um fato de treino rosa
a juventude perdida) cá de cima eu
pedalo atrás deste manuscrito
(escrevo
rasuro
reparo: ) a meus pés
outro infinito.



In você está aqui, Quetzal
Disponível nas livrarias a 25 de janeiro de 2013.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Um ponto no mapa (ou talvez um poema)


Pequeno pseudo-ensaio vagamente descritivo da obra de João Luís Barreto Guimarães. 

|Alexandra Malheiro

Alain, comentando Válery, diz-nos que "todo o pensamento começa por um poema". Lembro-me disto sempre que leio João Luís Barreto Guimarães, ainda que um pouco ao contrário, acreditando que nele os pensamentos acabam tornando-se poemas. Poemas como pensamentos, como um apontamento que tiramos ao andar pela rua, ao observar. Como se estivéssemos a ler um livro e fizéssemos uma anotação na margem, um sublinhado, João Luís faz o mesmo com o que observa, com as mais comezinhas ocorrências quotidianas como o trilho de óleo que o carro deixa na garagem e faz depois prendê-las ao seu próprio pensamento, com frequência uma divagação sobre uma memória poética, alguma coisa que leu, um quadro de viu, uma cena de um filme. Tem sido assim em todos os seus livros, um jogo metonímico e de linguagem que começa nas cenas quotidianas mas que nos leva muitas vezes por uma via erudita, às vezes de menor compreensão para os menos viajados. Quando falo em viagem digo-o, também, de forma lata aproveitando a amplitude da palavra seja a viagem física que fazemos a outros lugares seja a viagem que os livros, a arte, enfim, a cultura nos proporciona.


sábado, 19 de janeiro de 2013

39ª Maneira de Amar: anunciar (5:8)

|Joana Serrado


Hadewich consegue através do seu crescimento no amor adquirir a plena autoridade para falar, para anunciar as inscrições que leu no rosto do amado. Na sua feminilidade nunca abandonada, a Beguina relembra-nos aqui o seu grande mandamento, essa sua saudação que
também ela é a expressão da sua eterna preocupação para com a comunidade em que está inserida.
      A sua autoridade está conquistada, a sua preocupação é de mestra, de guiar as suas pequenas Beguinas para que elas próprias possam constituir uma vanguarda da prática íntima do amor justo. Assim se constata como é necessário boa companhia para iniciar a peregrinação do amor: a sagrada comunidade, da qual toda a jovem beguina faz parte. Recuperar o que é seu, no direito da dádiva divina, mas também como essa dádiva se opera transversalmente, passando do meu para o nosso.


In Guarany, 4águas, 2012.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

tus dedos en mi vísceras

|Joana Serrado


Doem-me os cafés da minha cidade
os que fecham ao domingo
os que fecham para obras
os que fecham para férias
os que fecham indefinidamente
os que fecham por fechar
os que não precisam de fechar e se trespassam trespassando-nos.
Sei que vou morrer com eles
sei que vou morrer sem eles.
Sei que o teu corpo é um corpo perecível
corruptível.
Sinto a tua morte nos meus ossos


e não consigo salvar-te.
Sinto a tua frigidez
a tua alvura apodrecida
a maneira como os teus maxilares se adormecem um no outro.
Só o perfume das violetas que brotam do teu corpo me faz respirar.



In Guarany, 4águas, 2012.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

13ª Maneira de amar: abraçar ou prender (8:3)


|Joana Serrado

O abraço é a condição de possibilidade de toda a união. É a maneira como, a seu tempo veremos, a Amada fica prisioneira da sua própria essência, que é o amor, mas também da Liberdade. É a extrema dádiva do amor que é o corpo – de um corpo que se preparou para o
amor, para a doçura, para o conhecimento total. Não há abandono da criaturalidade, pelo contrário, esta é um imperativo para amar.
Eis-nos no âmago do experienciar amoroso (mística): Hadewijch utiliza dois verbos distintos – abraçar e prender – para mostrar os dois pólos da vida humana: o prazer e a dor. Entre o experienciar – sentir – e o experienciar – provar: toda uma dinâmica experiencial baseada nos sentidos se concatena. Ser-se Cristo na doçura (ou natureza), mas também nas fraquezas, nas imperfeições, as quais, não sendo pecado, mostra o imperioso mandamento de viver e morrer com Cristo. Experienciar é despertar todos os sentidos. É prender, abraçar a criaturalidade.


In Guarany, 4águas, 2012.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os Estatutos do Amor


|Joana Serrado

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as
desflorar.
Que o prazer não precise de extrema – unção mas que a unção do
prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.



In Guarany, 4águas, 2012.