Pequeno pseudo-ensaio vagamente descritivo da obra de João Luís Barreto
Guimarães.
|Alexandra Malheiro
Alain, comentando Válery, diz-nos que "todo o
pensamento começa por um poema". Lembro-me disto sempre que leio João Luís
Barreto Guimarães, ainda que um pouco ao contrário, acreditando que nele os
pensamentos acabam tornando-se poemas. Poemas como pensamentos, como um
apontamento que tiramos ao andar pela rua, ao observar. Como se estivéssemos a
ler um livro e fizéssemos uma anotação na margem, um sublinhado, João Luís faz
o mesmo com o que observa, com as mais comezinhas ocorrências quotidianas como
o trilho de óleo que o carro deixa na garagem e faz depois prendê-las ao seu
próprio pensamento, com frequência uma divagação sobre uma memória poética,
alguma coisa que leu, um quadro de viu, uma cena de um filme. Tem sido assim em
todos os seus livros, um jogo metonímico e de linguagem que começa nas cenas
quotidianas mas que nos leva muitas vezes por uma via erudita, às vezes de
menor compreensão para os menos viajados. Quando falo em viagem digo-o, também,
de forma lata aproveitando a amplitude da palavra seja a viagem física que
fazemos a outros lugares seja a viagem que os livros, a arte, enfim, a cultura
nos proporciona.
