quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

13ª Maneira de amar: abraçar ou prender (8:3)


|Joana Serrado

O abraço é a condição de possibilidade de toda a união. É a maneira como, a seu tempo veremos, a Amada fica prisioneira da sua própria essência, que é o amor, mas também da Liberdade. É a extrema dádiva do amor que é o corpo – de um corpo que se preparou para o
amor, para a doçura, para o conhecimento total. Não há abandono da criaturalidade, pelo contrário, esta é um imperativo para amar.
Eis-nos no âmago do experienciar amoroso (mística): Hadewijch utiliza dois verbos distintos – abraçar e prender – para mostrar os dois pólos da vida humana: o prazer e a dor. Entre o experienciar – sentir – e o experienciar – provar: toda uma dinâmica experiencial baseada nos sentidos se concatena. Ser-se Cristo na doçura (ou natureza), mas também nas fraquezas, nas imperfeições, as quais, não sendo pecado, mostra o imperioso mandamento de viver e morrer com Cristo. Experienciar é despertar todos os sentidos. É prender, abraçar a criaturalidade.


In Guarany, 4águas, 2012.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os Estatutos do Amor


|Joana Serrado

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as
desflorar.
Que o prazer não precise de extrema – unção mas que a unção do
prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.



In Guarany, 4águas, 2012.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

XXI


|Joana Serrado

XXI
____________:Debaixo do viaduto há uma gráfica e uma loja de latas. Vendem-se mais coisas, das quais nunca percebi a utilidade: jarras, vidros de todas as espécies, pisa-papéis, caixas, objectos que nunca vira nem soubera o nome. A loja arrasta-se para dentro, com estantes e prateleiras às quais não se tem acesso. Há sempre promoções numa moeda que já não existe. A loja pede baixinho para se trespassar. O seu mundo já não é deste reino. A gráfica, por baixo,
dá sinais de vida, ocasionalmente, mas nada perturba o trespasse da companheira de cima. Entro lá como uma criminosa. Compro uma lata verde, onde poderei guardar o meu poema de amor. Poderia também comprar uma jarra ou um pisa-papéis – deve fazer falta, talvez, para guardar uma violeta e impedir que as cartas de amor esvoaçassem pela janela. Poderia simultaneamente salvar a loja do trespasse e escrever um poema de amor? Ou poderia comprar duas, três, cinco latas? Dizer ao dono que poderia transformar a loja numa loja de latas, de todas as cores, para aquela multidão que gritava contra o edifício, para todos eles escreverem e nela guardarem um poema de amor? Mas ele nem sequer me ouve, avia-me o pedido e desaparece por entre as prateleiras quase despidas para nunca mais ser visto.
      À saída está um bêbado (será o velho do jardim?). Vive à porta da loja que vai fechar. Todos os dias assiste à promoção das latas e dos pisa-papéis. 
       E aperto a minha lata contra o peito e corro debaixo do viaduto.


In Guarany, 4águas, 2012.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

IV - Guarany


|Joana Serrado


IV
GUARANY: Ao descobrir a Avenida, subindo-a ao ritmo da respiração, vi-o. Mesinhas solitárias esperavam por mim. Um empregado velho branquejante se arrastava balouçando o seu disco de metal. O café vazio, as paredes translúcidas – aqui escreverei o meu poema de amor. Mas a segunda vez que lá passei, armada de caneta e papel, o Guarany estava camuflado por jornais. Só o ferro dourado, por entre novidades atrasadas, era indício de ouro. Todas as outras vezes que se seguiram, quando me arrastava para outros cafés, o Guarany continuava fechado, sempre fechado, fechado para férias, fechado para descanso do pessoal, fechado indeterminadamente. Como seria possível? Esperava que os empregados se dirigissem para a porta, retirassem os jornais que cobriam a vitrina, e que tudo voltasse como dantes, por um dia! e que eu lá escrevesse o meu poema de amor. Passados dois anos, hoje mesmo, cambiaram o aviso: Por favor, não afixar cartazes. Agradecemos a sua compreensão. A gerência. Espreitei pelo papel (nunca o deveria!): tintas, as mesas desaparecidas, o balcão irreconhecível, o criado branquínio transformado em pó branco. Tintas. tenho medo. O meu poema em obras: A gerência agradece a compreensão.


In Guarany, 4águas, 2012.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Joana Serrado


Joana Serrado nasceu em Aveiro em 1979 e estudou filosofia, neerlandês e teologia em Coimbra, Porto, Berlim e Groningen. Foi Fulbright Visiting Fellow na Harvard Divinity School em 2010. Desde 2012 é investigadora em História do Misticismo e Teologia Feminista na Universidade de Oslo, onde também ensina Literatura Lusófona. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

É chegado o tempo do abate

|Jorge Melícias



É chegado o tempo do abate.

Sobre a liça
disponho a mansidão.

E que o horror não exima a beleza.


felonia, Cosmorama, 2013

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O horror era então a sua própria liturgia

|Jorge Melícias



O horror era então a sua própria liturgia.
E a carne levedava
com convicção nas lanças.

Tempo de uma piedade sem reservas,
anterior a qualquer axiologia.

E sobre a paisagem
ver
não prodigava ainda
a ritualização do remorso.


felonia, Cosmorama, 2013