segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ergo-me da refrega

| Jorge Melícias



Ergo-me da refrega

e tomo posse sobre o excídio.

Eu vi a minha mão em tudo o
que se demarca da piedade. E comovi-me. 



felonia, Cosmorana, 2013

domingo, 6 de janeiro de 2013

Jorge Melícias


Jorge Melícias nasceu em 1970. É autor de vários livros de poesia, como iniciação ao remorso; a luz nos pulmões; o dom circunscrito; incŭbus; a longa blasfémia; disrupção – 1998/2008 (poesia reunida) e  felonia/agma, este último com data de publicação de janeiro de 2013 e de onde foram selecionados os poemas que apresentaremos esta semana.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Estar de volta


|Editorial

Estar de volta como quem sempre ficou. É esse o pensamento que me traz aqui. Um pé dentro de 2013 e a revista Sítio de volta. Para tanta conversa de crise, de falha, de falência e desistência, voltar a levantar a cabeça e acenar, “ei, estamos aqui!”.

A revista Sítio de volta, não ao papel, à existência. Para não enfrentar sem resistência os custos de vida dos objetos. Abrimos aqui espaço ao lugar onde pretendemos ficar. Para começar, chamando uns quantos amigos à conversa. A Sítio estende os braços e reúne à volta da mesa virtual gente que acrescenta.

Em breve, do formigueiro de ideias que nos ocupa, iremos fazer vida diariamente neste blogue. Venham connosco, fazendo parte de um sítio que é também vosso.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Elisa Iglésias


Elisa Iglésias nasceu em Bilbao, Espanha, em 1972. Licenciada em Direito, exerceu diversas profissões até que, em 2007, se dedicou exclusivamente à Literatura. Em 2010 publicou o seu primeiro romance, “Desorientación” (pelas editoras Caballo de Troya, Random House Mondadori), baseado nas experiências da sua viagem à Índia. Viveu e trabalhou no México como jornalista, antes de se mudar, recentemente, para Paris. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

“O mundo não tem fim por isso hoje não ponho data”*


|Luís Filipe Cristóvão

a)
A minha voz e a parede da igreja, mais logo, assim seja, pedras e pedras – um luar. Queria contar-te como na aritmética, seria mais fácil, dois três um, mas no olhar, fechado como um cancro, eu tenho trinta e um dentes. E tu?

b)
O outro caso eram as macias romãs deixadas (por ti) em cima do balcão da cozinha e quando eu acordei tocava o telefone, a rádio ainda e sempre na antena dois. Escorreguei com os pés sobre o soalho – rangia, dizias tu que talvez os construtores – e uma minha mão sobre o teu colo, o balcão da cozinha e o meu pijama azul manchados para sempre antes de tomar banho.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Endechas a um amigo perdido


|André Simões

À  memória do Rui 

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner

            I. Mater Dolorosa
           
            Vergada sobre a montra. Os olhos inchados de lágrimas perpétuas. Não sei o que olhava. Nada. Desesperada. Ali estava. Imóvel. Em que pensaria. Parei uns segundos. Para lhe perguntar por ele. Como estava. Soubera-o naquele mesmo dia. Não tive coragem de a acordar. Vergada sobre a montra. Não olhava para nada. Estátua de sal. Das lágrimas. Mater dolorosa.

            II. A flor
           
            Estavas sentado, em silêncio, como tantas vezes. Apreciávamos a companhia um do outro, sem necessidade de palavras. Bastava-nos a presença do outro. Tinhas pegado numa folha de papel, abandonada sobre a caótica mesa do meu quarto. Dedos ágeis. Minutos depois era uma flor, pequena. Estendeste-ma. Coloquei-a num copo de shot. Ali amareleceu com o tempo e o fumo dos nossos cigarros.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Poemas de Arnaldo Antunes


|Arnaldo Antunes

Pensamento que vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.