Jorge Melícias
nasceu em 1970. É autor de vários livros de poesia, como iniciação ao remorso; a luz
nos pulmões; o dom circunscrito; incŭbus; a longa blasfémia; disrupção
– 1998/2008 (poesia reunida) e felonia/agma, este último com data de
publicação de janeiro de 2013 e de onde foram selecionados os poemas que
apresentaremos esta semana.
domingo, 6 de janeiro de 2013
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Estar de volta
|Editorial
Estar de
volta como quem sempre ficou. É esse o pensamento que me traz aqui. Um pé
dentro de 2013 e a revista Sítio de volta. Para tanta conversa de crise, de
falha, de falência e desistência, voltar a levantar a cabeça e acenar, “ei,
estamos aqui!”.
A revista
Sítio de volta, não ao papel, à existência. Para não enfrentar sem resistência
os custos de vida dos objetos. Abrimos aqui espaço ao lugar onde pretendemos
ficar. Para começar, chamando uns quantos amigos à conversa. A Sítio estende os
braços e reúne à volta da mesa virtual gente que acrescenta.
Em breve, do
formigueiro de ideias que nos ocupa, iremos fazer vida diariamente neste
blogue. Venham connosco, fazendo parte de um sítio que é também vosso.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Elisa Iglésias
Elisa
Iglésias nasceu em Bilbao, Espanha, em 1972. Licenciada em Direito, exerceu
diversas profissões até que, em 2007, se dedicou exclusivamente à Literatura.
Em 2010 publicou o seu primeiro romance, “Desorientación” (pelas editoras
Caballo de Troya, Random House Mondadori), baseado nas experiências da sua
viagem à Índia. Viveu e trabalhou no México como jornalista, antes de se mudar,
recentemente, para Paris.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
“O mundo não tem fim por isso hoje não ponho data”*
|Luís Filipe Cristóvão
a)
A minha voz e a parede da igreja, mais logo, assim seja, pedras e
pedras – um luar. Queria contar-te como na aritmética, seria mais fácil, dois
três um, mas no olhar, fechado como um cancro, eu tenho trinta e um dentes. E
tu?
b)
O outro caso eram as macias romãs deixadas (por ti) em cima do balcão
da cozinha e quando eu acordei tocava o telefone, a rádio ainda e sempre na
antena dois. Escorreguei com os pés sobre o soalho – rangia, dizias tu que
talvez os construtores – e uma minha mão sobre o teu colo, o balcão da cozinha
e o meu pijama azul manchados para sempre antes de tomar banho.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Endechas a um amigo perdido
|André Simões
À memória do Rui
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner
I. Mater Dolorosa
Vergada sobre a montra. Os olhos
inchados de lágrimas perpétuas. Não sei o que olhava. Nada. Desesperada. Ali
estava. Imóvel. Em que pensaria. Parei uns segundos. Para lhe perguntar por
ele. Como estava. Soubera-o naquele mesmo dia. Não tive coragem de a acordar.
Vergada sobre a montra. Não olhava para nada. Estátua de sal. Das lágrimas.
Mater dolorosa.
II. A flor
Estavas sentado, em silêncio, como
tantas vezes. Apreciávamos a companhia um do outro, sem necessidade de
palavras. Bastava-nos a presença do outro. Tinhas pegado numa folha de papel,
abandonada sobre a caótica mesa do meu quarto. Dedos ágeis. Minutos depois era
uma flor, pequena. Estendeste-ma. Coloquei-a num copo de shot. Ali amareleceu com o tempo e o fumo dos nossos cigarros.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Poemas de Arnaldo Antunes
|Arnaldo Antunes
Pensamento que vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.
domingo, 3 de abril de 2011
A cidade dorme
|Luiz Ruffato
Xuxa despertou, golpes de cassetete na
cabeça no tronco nos membros, assustado o grupo espalhou-se sacos-de-aniagem
pendurados dos ombros Ai ai caralho! Quê
isso porra?! o Zé imaginou interpor-se ao peeme, latiu preventivo, um coturno
arremessou-o contra as grades do parque
O velho despertou, os tiros nasciam da
televisão ou de lá de-fora? Os meninos sempre Aparece não, pai, pode dar problema mas o que ainda a perder? Nervos abalados
nem diazepan remedeia. Da ninhada de sete, quatro tombaram à desgraça,
incluindo uma filha-mulher. E a esposa, coitada, de desgosto há muito
O tenente despertou Caralho, Ivo, pra onde Quieto aí, Valtinho, agora é com nós, anunciou,
fedendo a suor, a cara branca do soldado Castilho. E a
viatura, engalfinhada com a treva, seguiu rumo
a outras cinco, que, amotinadas, aguardavam
ansiosas entre galpões abandonados. Em pânico, o Tenente Válter.
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