quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Estar de volta


|Editorial

Estar de volta como quem sempre ficou. É esse o pensamento que me traz aqui. Um pé dentro de 2013 e a revista Sítio de volta. Para tanta conversa de crise, de falha, de falência e desistência, voltar a levantar a cabeça e acenar, “ei, estamos aqui!”.

A revista Sítio de volta, não ao papel, à existência. Para não enfrentar sem resistência os custos de vida dos objetos. Abrimos aqui espaço ao lugar onde pretendemos ficar. Para começar, chamando uns quantos amigos à conversa. A Sítio estende os braços e reúne à volta da mesa virtual gente que acrescenta.

Em breve, do formigueiro de ideias que nos ocupa, iremos fazer vida diariamente neste blogue. Venham connosco, fazendo parte de um sítio que é também vosso.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Elisa Iglésias


Elisa Iglésias nasceu em Bilbao, Espanha, em 1972. Licenciada em Direito, exerceu diversas profissões até que, em 2007, se dedicou exclusivamente à Literatura. Em 2010 publicou o seu primeiro romance, “Desorientación” (pelas editoras Caballo de Troya, Random House Mondadori), baseado nas experiências da sua viagem à Índia. Viveu e trabalhou no México como jornalista, antes de se mudar, recentemente, para Paris. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

“O mundo não tem fim por isso hoje não ponho data”*


|Luís Filipe Cristóvão

a)
A minha voz e a parede da igreja, mais logo, assim seja, pedras e pedras – um luar. Queria contar-te como na aritmética, seria mais fácil, dois três um, mas no olhar, fechado como um cancro, eu tenho trinta e um dentes. E tu?

b)
O outro caso eram as macias romãs deixadas (por ti) em cima do balcão da cozinha e quando eu acordei tocava o telefone, a rádio ainda e sempre na antena dois. Escorreguei com os pés sobre o soalho – rangia, dizias tu que talvez os construtores – e uma minha mão sobre o teu colo, o balcão da cozinha e o meu pijama azul manchados para sempre antes de tomar banho.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Endechas a um amigo perdido


|André Simões

À  memória do Rui 

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner

            I. Mater Dolorosa
           
            Vergada sobre a montra. Os olhos inchados de lágrimas perpétuas. Não sei o que olhava. Nada. Desesperada. Ali estava. Imóvel. Em que pensaria. Parei uns segundos. Para lhe perguntar por ele. Como estava. Soubera-o naquele mesmo dia. Não tive coragem de a acordar. Vergada sobre a montra. Não olhava para nada. Estátua de sal. Das lágrimas. Mater dolorosa.

            II. A flor
           
            Estavas sentado, em silêncio, como tantas vezes. Apreciávamos a companhia um do outro, sem necessidade de palavras. Bastava-nos a presença do outro. Tinhas pegado numa folha de papel, abandonada sobre a caótica mesa do meu quarto. Dedos ágeis. Minutos depois era uma flor, pequena. Estendeste-ma. Coloquei-a num copo de shot. Ali amareleceu com o tempo e o fumo dos nossos cigarros.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Poemas de Arnaldo Antunes


|Arnaldo Antunes

Pensamento que vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

domingo, 3 de abril de 2011

A cidade dorme


|Luiz Ruffato

Xuxa despertou, golpes de cassetete na cabeça no tronco nos membros, assustado o grupo espalhou-se sacos-de-aniagem pendurados dos ombros Ai ai caralho! Quê isso porra?! o Zé imaginou interpor-se ao peeme, latiu preventivo, um coturno arremessou-o contra as grades do parque
        
O velho despertou, os tiros nasciam da televisão ou de lá de-fora? Os meninos sempre Aparece não, pai, pode dar problema mas o que ainda a perder? Nervos abalados nem diazepan remedeia. Da ninhada de sete, quatro tombaram à desgraça, incluindo uma filha-mulher. E a esposa, coitada, de desgosto há muito
        
O tenente despertou Caralho, Ivo, pra onde Quieto aí, Valtinho, agora é com nós, anunciou, fedendo a suor, a cara branca do soldado Castilho. E a viatura, engalfinhada com a treva, seguiu rumo a outras cinco, que, amotinadas, aguardavam ansiosas entre galpões abandonados. Em pânico, o Tenente Válter.

quinta-feira, 3 de março de 2011

4 poemas de Luís Maffei


|Luís Maffei

CONTRARIEDADE

Cruel, frenético e exigente é o
tempo,
poeta,
tu não.
Tu és morto e ele
a mim
arma de armas e bagagens e
instrumentos de fuga rumo
(a morte é depois,
é outra coisa)
ao que dura
pouco
dura
menos que o tempo
próprio fosse
justo fosse e ainda à mão
de um dedo à mão
da parte nova que
do tempo
escorre para o mais longe do
tempo tempo fosse.

E a vocação, poeta,
se a morte é depois, se
é outra coisa
é um tempo vivo e tão vivo
que
a mim
sorve de escombros
de coisa nova
beira uma finda
antes da
finda antes do
tempo antes do
abismo.