|Cristiane Rodrigues de Souza
I
Você é meu luar que abraço
como neblina.
II
De manhã,
a aparição súbita da sua beleza
na cozinha
despenteada
sem camisa sem defesa
com olhar de amor noturno
causa no ar o susto de asa
de passarinho
que irrompesse
pela janela
ou de um beijo
inesperado
que te dou.
III
você
me abraça leve leve
toque touch
de tela de
kobo
IV
Descubro-me, André,
em ti.
E quando partes
leva-me.
V
Há essa palavra
– preciso –
para definir o amor.
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sexta-feira, 18 de outubro de 2013
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Motivos que fizeram Joana terminar namoros
|Cristiane Rodrigues de Souza
–
Ele estava dançando com outras meninas!
(no
bailinho da escola)
-
Perguntou
se esperaria se decidir
entre a ex
e ela.
-
Não
conseguia se lembrar do rosto dele
no
outro dia.
-
Joana
desejava que morresse
para
que ele nunca tivesse existido
-
Demorou
muito para dizer que a amava.
-
Olhava
Joana fixamente
como
louco
-
Demorou
muito para dizer que a desejava.
-
Enchia
a vida de Joana de borboletas amarelas
mas
demorava a aparecer.
-
Ela
não entendia sua letra nas cartas de amor.
-
Era
muito Dom Juan!
apesar de trazer luas de presente
-
Seu
cheiro de maconha com álcool
dava
náuseas em Joana.
-
Era
muito lindo,
mas
a deixou esperando uma noite inteira uma vez.
-
Não
colocava pontos de interrogação
nas
mensagens do celular
(e
parecia imperativo quando era interrogativo)
-
Quando
viajava
ele
parecia o anão de jardim de Amélie Poulain
em
suas fotos do Face.
-
Falava
com a boca cheia
ao
fazer sexo
oral.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Estudos para um corpo masculino
|Cristiane Rodrigues de Souza
1.
boca
o limite da
mordida
e do
beijo
2.
Dejà vu
seus olhos são meu corpo devorado
3.
repouso em seus ombros como a lua
japonesa
4.
sempre agradeço aos seus joelhos
5.
meus quadris
se pudessem
descreveriam os seus
6.
amo as articulações
dos seus dedos
quando dentro
de mim
precedem
7.
não existe nada mais malicioso
do que as suas costas
1.
boca
o limite da
mordida
e do
beijo
2.
Dejà vu
seus olhos são meu corpo devorado
3.
repouso em seus ombros como a lua
japonesa
4.
sempre agradeço aos seus joelhos
5.
meus quadris
se pudessem
descreveriam os seus
6.
amo as articulações
dos seus dedos
quando dentro
de mim
precedem
7.
não existe nada mais malicioso
do que as suas costas
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Pobre mão flagrada
|Cristiane Rodrigues de Souza
Fotografo
o de leve tremor
da minha mão
quando ela toma consciência
a meio caminho
do gesto vão.
Tiro foto
do very instante
em que indo
no momento mesmo de se ir
dando-se como oferta
ela hesita
porque não serve
disseram.
Fotografo
o de leve tremor
da minha mão
quando ela toma consciência
a meio caminho
do gesto vão.
Tiro foto
do very instante
em que indo
no momento mesmo de se ir
dando-se como oferta
ela hesita
porque não serve
disseram.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Depois do amor
|Cristiane Rodrigues de Souza
Depois do amor
nos meus braços ele dorme e sonha com a luz o sol o ar
o antigo dodge branco de seu pai
(a sua cabeça de menino no encosto do banco do dodge)
ouve na memória a música de deturpados cassetes
e ressente o carro trepidar por estradas
(Creedence).
Uma aurora confusa diz pra mim lá fora que é hora de despojar-se de despojar-se
e as árvores desapegam-se das flores das flores das luas
ignoradas no chão.
Mas meu corpo comovido em suas mãos cria nele ritmo de noite quente
ele me prende
e me enreda e me leva como as ondas de Creedence.
Depois do amor
nos meus braços ele dorme e sonha com a luz o sol o ar
o antigo dodge branco de seu pai
(a sua cabeça de menino no encosto do banco do dodge)
ouve na memória a música de deturpados cassetes
e ressente o carro trepidar por estradas
(Creedence).
Uma aurora confusa diz pra mim lá fora que é hora de despojar-se de despojar-se
e as árvores desapegam-se das flores das flores das luas
ignoradas no chão.
Mas meu corpo comovido em suas mãos cria nele ritmo de noite quente
ele me prende
e me enreda e me leva como as ondas de Creedence.
domingo, 13 de outubro de 2013
Pensamentos Dispersos
| Natércia Simões
Por vezes um silêncio interior
nasce em mim e vai e vem,
ao ritmo de um pêndulo
inconstante. Vem e pára,
vai e fica, preso no instante
único do agora.
Refugia-se na espera da chegada
das palavras últimas
do Adeus para sempre,
que urgem ecoar no meu destino
de te deixar ficar quando já foste.
E reúno-me longe
com lembranças que penetram
nos meus nervos e metamorfoseiam
a realidade de um sonho
que me consome e controla!
Por vezes um silêncio interior
nasce em mim e vai e vem,
ao ritmo de um pêndulo
inconstante. Vem e pára,
vai e fica, preso no instante
único do agora.
Refugia-se na espera da chegada
das palavras últimas
do Adeus para sempre,
que urgem ecoar no meu destino
de te deixar ficar quando já foste.
E reúno-me longe
com lembranças que penetram
nos meus nervos e metamorfoseiam
a realidade de um sonho
que me consome e controla!
sábado, 5 de outubro de 2013
Quatro poemas de António LaCarne
|António LaCarne
poema para cálices & pessoas ausentes
não há espaço
nem alienígenas circunspectos
viajantes são nossos segredos nas estantes
performance madrugada de mil dentes
o amor que platina os bosques
regiões de fuga rodopiam meu percurso
& omisso adorar
raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo
relíquias de auroras boreais retidas no espaço
pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices
comemora descalça os ventos daí
os 365 beijos que eu jamais quis
as dolorosas formas do poder floral & dos carmas
exatidão em páginas & eles desenham fatalidades
tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.
poema para cálices & pessoas ausentes
não há espaço
nem alienígenas circunspectos
viajantes são nossos segredos nas estantes
performance madrugada de mil dentes
o amor que platina os bosques
regiões de fuga rodopiam meu percurso
& omisso adorar
raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo
relíquias de auroras boreais retidas no espaço
pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices
comemora descalça os ventos daí
os 365 beijos que eu jamais quis
as dolorosas formas do poder floral & dos carmas
exatidão em páginas & eles desenham fatalidades
tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.
sábado, 21 de setembro de 2013
Emily on the road - V
|Ramón Blanco
busquei na maleta aquel retrato no que sorrimos
lembras –
tamén collín unha folla de
afeitar e corteino ao medio
quería gardar a túa metade na
carteira pero ao final
optei por tirala tamén ao mar
– despois da miña –
a música das ondas parecía
querer facer que eses dous anacos do noso interior danzasen sobre as augas do
mar
mais non chegaron a rozarse
non agardei a ver o seu rumbo
entrei no coche para iniciar a
viaxe partindo de nós – a miña propia derrota –
como partín a foto
na que agora estamos mortos
e aínda así
sobrevivimos
![]() |
| ilustração de m. m. reino |
busquei na maleta aquel retrato no que sorrimos
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Emily on the road - IV
|Ramón Blanco
tamén chegaron as gaivotas na busca de alimento
reparas en que algún peixe xa
estaba morto antes da danza da morte
os peteiros
penetran no limo da pel
penetran no ventre murcho dos infortunados
da carnaza extirpan fragmentos
de intestino que aboian facendo círculos vermellos antes da extinción como
caramonas tras o incendio como a noite estrelada
e os corpos baleiros afondan
co peso de todos os adeuses ancoran no máis fondo da lama
pensei que sería fermoso
afogar tamén así o peso do teu recordo empuxarche o ventre entre líquidas
cortinas que se fechan a túa silueta acendida
facéndose incendio collendo
corpo baixo o líquido como nunha cubeta con fixador de secado no laboratorio
dun fotógrafo
descendo os chanzos da auga
até bater no limo
no máis fondo da lama
![]() |
| ilustração de m. m. reino |
tamén chegaron as gaivotas na busca de alimento
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Emily on the road - III
|Ramón Blanco
no extremo do embarcadoiro a carón da lonxa
hai un anaco inservíbel de
estacha
dáslle unha patada
e quedas mirando como afoga
cunha queixa apagada
– flop – antes de desaparecer
no limo
os peixes espállanse bican a
estacha con respecto como se bicaba noutrora o pan cando había que guindalo
– os peixes procuran alimento
da lama –
con respecto como se puidese
matalos dun trallazo
escoiteillo a un mariñeiro
– unha vez a estacha de amarre
do barco no que eu navegaba tensou tanto e de tan mal xeito que tronzou na
sacudida partiu a un compañeiro á metade pola cintura morreu no intre quedaron
dous homes nunha carne –
![]() |
| ilustração de m. m. reino |
no extremo do embarcadoiro a carón da lonxa
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Emily on the road - II
|Ramón Blanco
vai chegando a noite no peirao calmean as primeiras
luces parecen dicirnos
vós non sodes de aquí
un día tiñamos idea de ir ao
oeste a néboa dos teus ollos pedía ir ao oeste – farase por húmida dor farase
por amor aínda que haxa tanto
que escribir
idade enferma
aínda que doia escarvar no
máis fondo da lama
gardo as cartas que enviabas
desde a rexión escura desde o fulxente limo metálico da psique
acórdaste de min – son
peixes buscando alimento na
lama –
vin para pedirlle que me
ensine a sufrir
desde as altas cubertas dos
buques vencidos – toneladas de aceiro salgado – precipítanse ao mar serraduras
incandescentes vómitos de estrelas
![]() |
| ilustração de m. m. reino |
vai chegando a noite no peirao calmean as primeiras
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Emily on the road - I
|Ramón Blanco
Inicio
pola separación e a
enfermidade
nun domingo sombrizo
viñeches dar aquí e xa é tarde
– tamén é tarde
para o retorno – non penses
máis niso –
nubes preñadas de dor púrpura
as nubes pairan por riba da
túa cabeza patinan nas xeadas
cabezas dos operarios do
estaleiro
as sirenas
penduran a súa furia no arame
do vento
nordés e no fondo
aceiro
das augas os ollos
– penetrantes – envolven a
lama – cospen o limo cospen
os fillos que enxendren
a pel dos peixes devolve
estalos metálicos – compós
reminiscencias heroicas no papel –
de prata ollos brancos no
fondo da lama
o mar
o mar espello que nos devolve
a mirada esa mirada luz que
nos envolvía nunha sacudida
eléctrica –
![]() |
| ilustração de m. m. reino |
Inicio
quinta-feira, 18 de julho de 2013
pianistas
| Arvis Viguls
1
enquanto ele tocava complicados cappricios em frente de uma auditório
escurecido,
ninguém reparou que a sua face ardia e das suas omoplatas uma sombra
negra emergia.
e depois ele estacou à chuva enfrentando caras que eram mãos franzidas.
e então nós? perguntaste e logo eu tentei pôr ordem nas coisas,
coisas que se dispersavam por todo o lado na vazante da linguagem.
o que resta quando acertamos as contas com a solidão de anos?
quem habita os nossos quartos quando nós os abandonamos?
e tu? tens algum segredo escondido na manga?
sobre a chave branca como a parte visível do icebergue;
sobre o silêncio que rasga colchões em pedaços.
mais tarde nessa noite, resultados, jornais e cadeiras – tudo espalhado
no chão do quarto
cobrindo as passagens, ligando a mais escura das profundidades.
eu sei, todas as noites baixavas a tua cara
dentro dessa mina de pedra.
2
somos convidados para uma festa calma, lavando a loiça,
arrumando as pratas em caixas cobertas com veludo,
quando as cadeiras já foram levantadas para cima das mesas e as
constelações já se extinguiram.
aqui estamos, dois vagabundos a tentar habitar os corações.
eu, um pianista louco, tu, uma criada neste mistério das coisas.
Tradução de Luís Filipe Cristóvão
quarta-feira, 17 de julho de 2013
sou um jardim
| Arvis Viguls
folhas verdes sobre os meus olhos, eu apenas percebo a cadência entre luz e noite.
como mamilos, aquelas duras flores espremidas através do tecido para o florescimento,
estendem as suas raízes bem dentro de mim, onde os animais nocturnos trabalham cegamente,
disparando pegajosos sucos de vida para dentro uns dos outros.
os nervos foram desvendados, pequenos vasos sanguíneos nas palmas como numa planta.
nunca foi tão fácil como hoje para mim, agora eu sei que sou um jardim.
por vezes à noite, as minhas mãos ficam sem forças sobre os teus seios,
e, inadvertidamente, espalho os meus dedos como raízes, mergulhando-os debaixo da tua pele.
a minha boca é um rasganço na pele cor de romã,
revelando-se como um filme de gomas vermelhas.
e o meu coração é uma fruta tiritante, que por vezes, tendo caído do ramo,
fica debaixo da sua própria sombra.
apenas me lembro do cheiro da pele – a pele limpa
desencascada dos sucos.
Tradução Luís Filipe Cristóvão
folhas verdes sobre os meus olhos, eu apenas percebo a cadência entre luz e noite.
como mamilos, aquelas duras flores espremidas através do tecido para o florescimento,
estendem as suas raízes bem dentro de mim, onde os animais nocturnos trabalham cegamente,
disparando pegajosos sucos de vida para dentro uns dos outros.
os nervos foram desvendados, pequenos vasos sanguíneos nas palmas como numa planta.
nunca foi tão fácil como hoje para mim, agora eu sei que sou um jardim.
por vezes à noite, as minhas mãos ficam sem forças sobre os teus seios,
e, inadvertidamente, espalho os meus dedos como raízes, mergulhando-os debaixo da tua pele.
a minha boca é um rasganço na pele cor de romã,
revelando-se como um filme de gomas vermelhas.
e o meu coração é uma fruta tiritante, que por vezes, tendo caído do ramo,
fica debaixo da sua própria sombra.
apenas me lembro do cheiro da pele – a pele limpa
desencascada dos sucos.
Tradução Luís Filipe Cristóvão
terça-feira, 16 de julho de 2013
Silêncio
|Sonata Paliulyte
O teu silêncio
não disse nada
quando esse momento
se quebrou sobre a minha cabeça.
Eu queria
só uma palavra –
e não me resta sequer
uma pequena oração.
Por vezes estás aqui,
outras és apenas uma vaga silhueta
no casco fendido que é a nossa vida.
Ao longe, no mar –
apenas areia e azul.
A mim, caber-me-á a culpa.
O teu silêncio
não disse nada
quando esse momento
se quebrou sobre a minha cabeça.
Eu queria
só uma palavra –
e não me resta sequer
uma pequena oração.
Por vezes estás aqui,
outras és apenas uma vaga silhueta
no casco fendido que é a nossa vida.
Ao longe, no mar –
apenas areia e azul.
A mim, caber-me-á a culpa.
Tradução de Luís Filipe Cristóvão
segunda-feira, 15 de julho de 2013
A meditação da batata
|Sonata Paliulyte
Agachada junto ao caixote,
descasco batatas.
O ritual é simples,
cortar e arrancar os rebentos,
atirar fora as cascas.
Pum… pum… fazem elas
ao cair no monte.
Vou pegar numa grande tigela
e fazer panquecas de batata –
um dos teus pratos preferidos.
Uma panqueca para a mãe,
outra – para o pai,
a terceira – para a tia,
para as avós
transformadas em memórias,
para o mais pequeno,
para mim própria,
por todos aqueles dias e noites,
por todas aquelas lágrimas derramadas
que hoje serão engolidas com as panquecas –
bem salgadas ficarão.
Se alguém salga em demasia a comida,
dizem as pessoas que isso significa estar apaixonada,
mas hoje não terei compaixão.
Só a frigideira,
só o estalido certeiro
do óleo;
a face desprotegida,
as mãos despidas
como alvo,
as batatas mal raladas,
ainda cruas,
ganhando tom,
vão ficar quase queimadas
como tu gostas.
Imersas
no óleo,
submergidas
na lembrança.
Agachada junto ao caixote,
descasco batatas.
O ritual é simples,
cortar e arrancar os rebentos,
atirar fora as cascas.
Pum… pum… fazem elas
ao cair no monte.
Vou pegar numa grande tigela
e fazer panquecas de batata –
um dos teus pratos preferidos.
Uma panqueca para a mãe,
outra – para o pai,
a terceira – para a tia,
para as avós
transformadas em memórias,
para o mais pequeno,
para mim própria,
por todos aqueles dias e noites,
por todas aquelas lágrimas derramadas
que hoje serão engolidas com as panquecas –
bem salgadas ficarão.
Se alguém salga em demasia a comida,
dizem as pessoas que isso significa estar apaixonada,
mas hoje não terei compaixão.
Só a frigideira,
só o estalido certeiro
do óleo;
a face desprotegida,
as mãos despidas
como alvo,
as batatas mal raladas,
ainda cruas,
ganhando tom,
vão ficar quase queimadas
como tu gostas.
Imersas
no óleo,
submergidas
na lembrança.
Tradução de Luís Filipe Cristóvão
sábado, 6 de julho de 2013
A poeta dos gatos
|Celeste Pereira
Sons de echarpe
Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda,
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo
que me trouxeste não me lembro bem de onde, lamento...
mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos, esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,
suspiros que repuxam a alma e a silhueta de todas as coisas.--
Sons de echarpe
Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda,
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo
que me trouxeste não me lembro bem de onde, lamento...
mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos, esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,
suspiros que repuxam a alma e a silhueta de todas as coisas.--
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Ciência: Fausto e o Nada
|Luís Coelho
Os homens do Espírito pretendem ver Fausto na Ciência
O saber a atentar o caminho babélico
A perversão das Origens
Para que às Origens voltemos
As mesmas que nunca deixámos de ser,
Mas se a Ciência triunfar
Na suspensão do sofrimento
Do mal do atrito do Eu
Já Faustos não seremos
Porque Nada, na verdade, seremos
Porque a morte do atrito e a extinção das necessidades
É a diluição da consciência
De um Eu, que já não sendo, se torna Nada
Do mesmo Nada de que fala o Espírito
Mas agora um Absoluto em Terra
Que da Terra nunca chegou a partir
Senão por mera ilusão, projeção,
Devaneio ou consciência sobrepujada.
Pensar que o controlo dos genes e a tiranização das causas
Deste Admirável Mundo Novo que já se inicia num mais que vislumbre
Será sufocado pelo poder do Eu que se deseja Espírito que se deseja Amor
É esquecer que é a própria volição
É a própria consciência do Eu ultrajado
É a própria noção de um Ego maltratado
É o próprio sentido e mesmo a felicidade
Que já não serão nossos
Porque terão sido programados
Porque terão sido tornados outrem
Porque terão sido vertidos no Nada
Que o antigo desejo de não sofrer
Terá determinado nesta solução de nada ser.
O Admirável Mundo Novo promete o Nada
Sem que se pareça com o Absoluto do Infinito
Porque aqui reside apenas a morte de Ser
E o desejo a ambição serão de uns poucos
Porque todos os outros já nada serão
E o querer ser será de cada vez menos
Serão uns tantos a ser e com sofrer
Porque não entendem que a morte da dor
Tem de ter a morte de ser
E serão todos os outros sem o ser sem o sofrer
Mas já nada são porque não sentem e não desejam
Daí que sofrer é condição da vida
E o ambicionar a condição do Nada
Para que o Nada mate a própria ambição,
O sofrimento e o tudo querer,
Daí que sofrer eternamente é condição de ser
E que impingir o Nada aos outros para que algo em nós seja
É como impingir o Nada a nós mesmos
Porque só este matará a dor, a própria e a alheia.
Nada ser é já não desejar ser ou involuir
É a garantia do Espírito que não requer corpo
Quando ser algo e querer o eterno retorno
Na via correta, no dharma, na obra sublimada
Mas num Absoluto nunca consumado
É o estar da psique, de uma que se pretende tal
Que se pretende ‘Eu’ no atrito permanente
Parece-me que pretender o equilíbrio na Terra
É a via mais sensata
Anulam-se os extremos, a dualidade bipolar,
Mas sem que inexista um certo atrito
Pois que a aventura de ser é a condição do alívio
De um alívio que não pode existir no ‘Nada’
E que por isso parece ser uma má solução
Uma armadilha
Porque lá chegando lá se perde a vontade de ser
Do mesmo que queria a euforia perpétua
Porque entendeu como todos os outros
O impermanente como permanente.
Os homens do Espírito pretendem ver Fausto na Ciência
O saber a atentar o caminho babélico
A perversão das Origens
Para que às Origens voltemos
As mesmas que nunca deixámos de ser,
Mas se a Ciência triunfar
Na suspensão do sofrimento
Do mal do atrito do Eu
Já Faustos não seremos
Porque Nada, na verdade, seremos
Porque a morte do atrito e a extinção das necessidades
É a diluição da consciência
De um Eu, que já não sendo, se torna Nada
Do mesmo Nada de que fala o Espírito
Mas agora um Absoluto em Terra
Que da Terra nunca chegou a partir
Senão por mera ilusão, projeção,
Devaneio ou consciência sobrepujada.
Pensar que o controlo dos genes e a tiranização das causas
Deste Admirável Mundo Novo que já se inicia num mais que vislumbre
Será sufocado pelo poder do Eu que se deseja Espírito que se deseja Amor
É esquecer que é a própria volição
É a própria consciência do Eu ultrajado
É a própria noção de um Ego maltratado
É o próprio sentido e mesmo a felicidade
Que já não serão nossos
Porque terão sido programados
Porque terão sido tornados outrem
Porque terão sido vertidos no Nada
Que o antigo desejo de não sofrer
Terá determinado nesta solução de nada ser.
O Admirável Mundo Novo promete o Nada
Sem que se pareça com o Absoluto do Infinito
Porque aqui reside apenas a morte de Ser
E o desejo a ambição serão de uns poucos
Porque todos os outros já nada serão
E o querer ser será de cada vez menos
Serão uns tantos a ser e com sofrer
Porque não entendem que a morte da dor
Tem de ter a morte de ser
E serão todos os outros sem o ser sem o sofrer
Mas já nada são porque não sentem e não desejam
Daí que sofrer é condição da vida
E o ambicionar a condição do Nada
Para que o Nada mate a própria ambição,
O sofrimento e o tudo querer,
Daí que sofrer eternamente é condição de ser
E que impingir o Nada aos outros para que algo em nós seja
É como impingir o Nada a nós mesmos
Porque só este matará a dor, a própria e a alheia.
Nada ser é já não desejar ser ou involuir
É a garantia do Espírito que não requer corpo
Quando ser algo e querer o eterno retorno
Na via correta, no dharma, na obra sublimada
Mas num Absoluto nunca consumado
É o estar da psique, de uma que se pretende tal
Que se pretende ‘Eu’ no atrito permanente
Parece-me que pretender o equilíbrio na Terra
É a via mais sensata
Anulam-se os extremos, a dualidade bipolar,
Mas sem que inexista um certo atrito
Pois que a aventura de ser é a condição do alívio
De um alívio que não pode existir no ‘Nada’
E que por isso parece ser uma má solução
Uma armadilha
Porque lá chegando lá se perde a vontade de ser
Do mesmo que queria a euforia perpétua
Porque entendeu como todos os outros
O impermanente como permanente.
sábado, 22 de junho de 2013
Hino em memória
|Rute Castro
é tempo deste peito de vontade cuidar de uma presença,
e a graça coexistir com o assombrear de um templo- a mão estendida em rogo- como o exceder de uma simplicidade santa aquando da data em sina,
tudo a Ti, a oferenda de passos e o peso de significado às costas,
afim da salvação, deste depois em alguns de nós.
é tempo deste peito de vontade cuidar de uma presença,
e a graça coexistir com o assombrear de um templo- a mão estendida em rogo- como o exceder de uma simplicidade santa aquando da data em sina,
tudo a Ti, a oferenda de passos e o peso de significado às costas,
afim da salvação, deste depois em alguns de nós.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
esperar
|Rute Castro
reparar na janela interna de avistar longe e seres casa na manhã de frutos, nas páginas de dedo na boca e no mar a abraçar o céu.
acreditar fiel nesse espaço sagrado.
reparar na janela interna de avistar longe e seres casa na manhã de frutos, nas páginas de dedo na boca e no mar a abraçar o céu.
acreditar fiel nesse espaço sagrado.
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