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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Poemas para André Meyer (I)

|Cristiane Rodrigues de Souza

I

Você é meu luar que abraço
como neblina.

II
De manhã,
a aparição súbita da sua beleza
na cozinha
despenteada
sem camisa sem defesa
com olhar de amor noturno
causa no ar o susto de asa
de passarinho
que irrompesse
pela janela
ou de um beijo
inesperado
que te dou.

III
você
me abraça leve leve
toque touch
de tela de
 kobo

IV

Descubro-me, André,
em ti.
E quando partes
leva-me.


V
Há essa palavra
– preciso –
para definir o amor.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Motivos que fizeram Joana terminar namoros

|Cristiane Rodrigues de Souza

– Ele estava dançando com outras meninas!
(no bailinho da escola)

-

Perguntou se esperaria se decidir
            entre a ex
            e ela.

-

Não conseguia se lembrar do rosto dele
no outro dia.

-

Joana desejava que morresse
para que ele nunca tivesse existido

-

Demorou muito para dizer que a amava.

-

Olhava Joana fixamente
como louco

-

Demorou muito para dizer que a desejava.

-

Enchia a vida de Joana de borboletas amarelas
mas demorava a aparecer.

-

Ela não entendia sua letra nas cartas de amor.

-

Era muito Dom Juan!
            apesar de trazer luas de presente

-

Seu cheiro de maconha com álcool
dava náuseas em Joana.

-

Era muito lindo,
mas a deixou esperando uma noite inteira uma vez.

-

Não colocava pontos de interrogação
nas mensagens do celular
(e parecia imperativo quando era interrogativo)

-

Quando viajava
ele parecia o anão de jardim de Amélie Poulain
em suas fotos do Face.

-

Falava com a boca cheia
ao fazer sexo

oral.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Estudos para um corpo masculino

|Cristiane Rodrigues de Souza

1.
boca

o limite da
mordida
e do
beijo


2.
Dejà vu

seus olhos são meu corpo devorado


3.
repouso em seus ombros como a lua
japonesa


4.
sempre agradeço aos seus joelhos


5.
meus quadris
se pudessem
descreveriam os seus


6.
amo as articulações
dos seus dedos
quando dentro
de mim
precedem


7.
não existe nada mais malicioso
do que as suas costas

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pobre mão flagrada

|Cristiane Rodrigues de Souza

Fotografo
o de leve tremor
da minha mão
quando ela toma consciência
a meio caminho
do gesto vão.

Tiro foto
do very instante
em que indo
no momento mesmo de se ir
dando-se como oferta
ela hesita
porque não serve
disseram.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Depois do amor

|Cristiane Rodrigues de Souza

Depois do amor
nos meus braços ele dorme e sonha com a luz o sol o ar
o antigo dodge branco de seu pai
(a sua cabeça de menino no encosto do banco do dodge)
ouve na memória a música de deturpados cassetes
e ressente o carro trepidar por estradas
(Creedence).

Uma aurora confusa diz pra mim lá fora que é hora de despojar-se de despojar-se
e as árvores desapegam-se das flores das flores das luas
ignoradas no chão.

Mas meu corpo comovido em suas mãos cria nele ritmo de noite quente
ele me prende
e me enreda e me leva como as ondas de Creedence.

domingo, 13 de outubro de 2013

Pensamentos Dispersos

| Natércia Simões

Por vezes um silêncio interior
nasce em mim e vai e vem,
ao ritmo de um pêndulo
inconstante. Vem e pára,
vai e fica, preso no instante
único do agora.
Refugia-se na espera da chegada
das palavras últimas
do Adeus para sempre,
que urgem ecoar no meu destino
de te deixar ficar quando já foste.
E reúno-me longe
com lembranças que penetram
nos meus nervos e metamorfoseiam
a realidade de um sonho
que me consome e controla!

sábado, 5 de outubro de 2013

Quatro poemas de António LaCarne

|António LaCarne


poema para cálices & pessoas ausentes

não há espaço

nem alienígenas circunspectos

viajantes são nossos segredos nas estantes

performance madrugada de mil dentes

o amor que platina os bosques

regiões de fuga rodopiam meu percurso

& omisso adorar

raízes flagelos distâncias no espaldar do mundo

relíquias de auroras boreais retidas no espaço

pois esta fumaça cercada por vidros cálices vórtices

comemora descalça os ventos daí

os 365 beijos que eu jamais quis

as dolorosas formas do poder floral & dos carmas

exatidão em páginas & eles desenham fatalidades

tão começo tão tarde tão trabalhosa é a noite.


sábado, 21 de setembro de 2013

Emily on the road - V

|Ramón Blanco

ilustração de m. m. reino


busquei na maleta aquel retrato no que sorrimos

lembras –

tamén collín unha folla de afeitar e corteino ao medio

quería gardar a túa metade na carteira pero ao final

optei por tirala tamén ao mar – despois da miña –

a música das ondas parecía querer facer que eses dous anacos do noso interior danzasen sobre as augas do mar

mais non chegaron a rozarse

non agardei a ver o seu rumbo

entrei no coche para iniciar a viaxe partindo de nós – a miña propia derrota – 

como partín a foto

na que agora estamos mortos

e aínda así

sobrevivimos

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Emily on the road - IV

|Ramón Blanco

ilustração de m. m. reino


tamén chegaron as gaivotas na busca de alimento

reparas en que algún peixe xa estaba morto antes da danza da morte

os peteiros

penetran no limo da pel penetran no ventre murcho dos infortunados

da carnaza extirpan fragmentos de intestino que aboian facendo círculos vermellos antes da extinción como caramonas tras o incendio como a noite estrelada

e os corpos baleiros afondan co peso de todos os adeuses ancoran no máis fondo da lama

pensei que sería fermoso afogar tamén así o peso do teu recordo empuxarche o ventre entre líquidas cortinas que se fechan a túa silueta acendida

facéndose incendio collendo corpo baixo o líquido como nunha cubeta con fixador de secado no laboratorio dun fotógrafo

descendo os chanzos da auga até bater no limo

no máis fondo da lama

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Emily on the road - III

|Ramón Blanco

ilustração de m. m. reino


no extremo do embarcadoiro a carón da lonxa

hai un anaco inservíbel de estacha

dáslle unha patada

e quedas mirando como afoga cunha queixa apagada

– flop – antes de desaparecer no limo

os peixes espállanse bican a estacha con respecto como se bicaba noutrora o pan cando había que guindalo

– os peixes procuran alimento da lama –

con respecto como se puidese matalos dun trallazo

escoiteillo a un mariñeiro

– unha vez a estacha de amarre do barco no que eu navegaba tensou tanto e de tan mal xeito que tronzou na sacudida partiu a un compañeiro á metade pola cintura morreu no intre quedaron dous homes nunha carne –

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Emily on the road - II

|Ramón Blanco

ilustração de m. m. reino


vai chegando a noite no peirao calmean as primeiras

luces parecen dicirnos

vós non sodes de aquí

un día tiñamos idea de ir ao oeste a néboa dos teus ollos pedía ir ao oeste – farase por húmida dor farase por amor aínda que haxa tanto

que escribir

idade enferma

aínda que doia escarvar no máis fondo da lama

gardo as cartas que enviabas desde a rexión escura desde o fulxente limo metálico da psique

acórdaste de min – son

peixes buscando alimento na lama –

vin para pedirlle que me ensine a sufrir

desde as altas cubertas dos buques vencidos – toneladas de aceiro salgado – precipítanse ao mar serraduras incandescentes vómitos de estrelas

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Emily on the road - I

|Ramón Blanco

ilustração de m. m. reino


Inicio

pola separación e a enfermidade

nun domingo sombrizo

viñeches dar aquí e xa é tarde – tamén é tarde

para o retorno – non penses máis niso –

nubes preñadas de dor púrpura

as nubes pairan por riba da túa cabeza patinan nas xeadas

cabezas dos operarios do estaleiro

as sirenas

penduran a súa furia no arame do vento

nordés e no fondo

aceiro

das augas os ollos

– penetrantes – envolven a lama – cospen o limo cospen

os fillos que enxendren

a pel dos peixes devolve

estalos metálicos – compós reminiscencias heroicas no papel –

de prata ollos brancos no fondo da lama

o mar

o mar espello que nos devolve

a mirada esa mirada luz que nos envolvía nunha sacudida

eléctrica –

quinta-feira, 18 de julho de 2013

pianistas

| Arvis Viguls

1
enquanto ele tocava complicados cappricios em frente de uma auditório escurecido,
ninguém reparou que a sua face ardia e das suas omoplatas uma sombra negra emergia.
e depois ele estacou à chuva enfrentando caras que eram mãos franzidas.
e então nós? perguntaste e logo eu tentei pôr ordem nas coisas,
coisas que se dispersavam por todo o lado na vazante da linguagem.
o que resta quando acertamos as contas com a solidão de anos?
quem habita os nossos quartos quando nós os abandonamos?
e tu? tens algum segredo escondido na manga?
sobre a chave branca como a parte visível do icebergue;
sobre o silêncio que rasga colchões em pedaços.
mais tarde nessa noite, resultados, jornais e cadeiras – tudo espalhado no chão do quarto
cobrindo as passagens, ligando a mais escura das profundidades.
eu sei, todas as noites baixavas a tua cara
dentro dessa mina de pedra.


2

somos convidados para uma festa calma, lavando a loiça,
arrumando as pratas em caixas cobertas com veludo,
quando as cadeiras já foram levantadas para cima das mesas e as constelações já se extinguiram.

aqui estamos, dois vagabundos a tentar habitar os corações.

eu, um pianista louco, tu, uma criada neste mistério das coisas. 




Tradução de Luís Filipe Cristóvão

quarta-feira, 17 de julho de 2013

sou um jardim

| Arvis Viguls

folhas verdes sobre os meus olhos, eu apenas percebo a cadência entre luz e noite.
como mamilos, aquelas duras flores espremidas através do tecido para o florescimento,

estendem as suas raízes bem dentro de mim, onde os animais nocturnos trabalham cegamente,
disparando pegajosos sucos de vida para dentro uns dos outros.

os nervos foram desvendados, pequenos vasos sanguíneos nas palmas como numa planta.
nunca foi tão fácil como hoje para mim, agora eu sei que sou um jardim.

por vezes à noite, as minhas mãos ficam sem forças sobre os teus seios,
e, inadvertidamente, espalho os meus dedos como raízes, mergulhando-os debaixo da tua pele.

a minha boca é um rasganço na pele cor de romã,
revelando-se como um filme de gomas vermelhas.

e o meu coração é uma fruta tiritante, que por vezes, tendo caído do ramo,
fica debaixo da sua própria sombra.

apenas me lembro do cheiro da pele – a pele limpa
desencascada dos sucos.



Tradução Luís Filipe Cristóvão

terça-feira, 16 de julho de 2013

Silêncio

|Sonata Paliulyte

O teu silêncio
não disse nada
quando esse momento
se quebrou sobre a minha cabeça.
Eu queria
só uma palavra –
e não me resta sequer
uma pequena oração.
Por vezes estás aqui,
outras és apenas uma vaga silhueta
no casco fendido que é a nossa vida.
Ao longe, no mar –
apenas areia e azul.
A mim, caber-me-á a culpa.




Tradução de Luís Filipe Cristóvão

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A meditação da batata

|Sonata Paliulyte

Agachada junto ao caixote,
descasco batatas.
O ritual é simples,
cortar e arrancar os rebentos,
atirar fora as cascas.
Pum… pum… fazem elas
ao cair no monte.
Vou pegar numa grande tigela
e fazer panquecas de batata –
um dos teus pratos preferidos.
Uma panqueca para a mãe,
outra – para o pai,
a terceira – para a tia,
para as avós
transformadas em memórias,
para o mais pequeno,
para mim própria,
por todos aqueles dias e noites,
por todas aquelas lágrimas derramadas
que hoje serão engolidas com as panquecas –
bem salgadas ficarão.
Se alguém salga em demasia a comida,
dizem as pessoas que isso significa estar apaixonada,
mas hoje não terei compaixão.
Só a frigideira,
só o estalido certeiro
do óleo;
a face desprotegida,
as mãos despidas
como alvo,
as batatas mal raladas,
ainda cruas,
ganhando tom,
vão ficar quase queimadas
como  tu gostas.
Imersas
no óleo,
submergidas
na lembrança.



Tradução de Luís Filipe Cristóvão

sábado, 6 de julho de 2013

A poeta dos gatos

|Celeste Pereira


Sons de echarpe

Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda,
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo
que me trouxeste não me lembro bem de onde, lamento...

mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos, esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,

suspiros que repuxam a alma e a silhueta de todas as coisas.--

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ciência: Fausto e o Nada

|Luís Coelho

Os homens do Espírito pretendem ver Fausto na Ciência
O saber a atentar o caminho babélico
A perversão das Origens
Para que às Origens voltemos
As mesmas que nunca deixámos de ser,
Mas se a Ciência triunfar
Na suspensão do sofrimento
Do mal do atrito do Eu
Já Faustos não seremos
Porque Nada, na verdade, seremos
Porque a morte do atrito e a extinção das necessidades
É a diluição da consciência
De um Eu, que já não sendo, se torna Nada
Do mesmo Nada de que fala o Espírito
Mas agora um Absoluto em Terra
Que da Terra nunca chegou a partir
Senão por mera ilusão, projeção,
Devaneio ou consciência sobrepujada.

Pensar que o controlo dos genes e a tiranização das causas
Deste Admirável Mundo Novo que já se inicia num mais que vislumbre
Será sufocado pelo poder do Eu que se deseja Espírito que se deseja Amor
É esquecer que é a própria volição
É a própria consciência do Eu ultrajado
É a própria noção de um Ego maltratado
É o próprio sentido e mesmo a felicidade
Que já não serão nossos
Porque terão sido programados
Porque terão sido tornados outrem
Porque terão sido vertidos no Nada
Que o antigo desejo de não sofrer
Terá determinado nesta solução de nada ser.

O Admirável Mundo Novo promete o Nada
Sem que se pareça com o Absoluto do Infinito
Porque aqui reside apenas a morte de Ser
E o desejo a ambição serão de uns poucos
Porque todos os outros já nada serão
E o querer ser será de cada vez menos

Serão uns tantos a ser e com sofrer
Porque não entendem que a morte da dor
Tem de ter a morte de ser
E serão todos os outros sem o ser sem o sofrer
Mas já nada são porque não sentem e não desejam
Daí que sofrer é condição da vida
E o ambicionar a condição do Nada
Para que o Nada mate a própria ambição,
O sofrimento e o tudo querer,
Daí que sofrer eternamente é condição de ser
E que impingir o Nada aos outros para que algo em nós seja
É como impingir o Nada a nós mesmos
Porque só este matará a dor, a própria e a alheia.

Nada ser é já não desejar ser ou involuir
É a garantia do Espírito que não requer corpo
Quando ser algo e querer o eterno retorno
Na via correta, no dharma, na obra sublimada
Mas num Absoluto nunca consumado
É o estar da psique, de uma que se pretende tal
Que se pretende ‘Eu’ no atrito permanente

Parece-me que pretender o equilíbrio na Terra
É a via mais sensata
Anulam-se os extremos, a dualidade bipolar,
Mas sem que inexista um certo atrito
Pois que a aventura de ser é a condição do alívio
De um alívio que não pode existir no ‘Nada’
E que por isso parece ser uma má solução
Uma armadilha
Porque lá chegando lá se perde a vontade de ser
Do mesmo que queria a euforia perpétua
Porque entendeu como todos os outros
O impermanente como permanente.

sábado, 22 de junho de 2013

Hino em memória

|Rute Castro

é tempo deste peito de vontade cuidar de uma presença,
e a graça coexistir com o assombrear de um templo- a mão estendida em rogo- como o exceder de uma simplicidade santa aquando da data em sina,
tudo a Ti, a oferenda de passos e o peso de significado às costas,
afim da salvação, deste depois em alguns de nós.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

esperar

|Rute Castro

reparar na janela interna de avistar longe e seres casa na manhã de frutos, nas páginas de dedo na boca e no mar a abraçar o céu.

acreditar fiel nesse espaço sagrado.