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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mesa do Canto: Todos os lugares onde te amei

|Alexandra Malheiro

Agrada-me começar assim a crónica, com um título piroso e lamechas, ainda que o corpo da crónica possa não confirmar a investida no território afectivo é sempre uma bela forma de deixar o leitor a pensar que me vou permitir a contemplações de ordem amorosa e deleitá-los com o rigoroso detalhe da minha vida íntima. A própria referência, neste mesmo parágrafo, ao "corpo da crónica" já é, só por si, uma vaga alusão ao erotismo que cada um de nós transporta interiormente.

A verdade verdadinha é que tinha planeado levar esta crónica pelas ruas do Outono, a pisar o restolho e a sentir os primeiros bancos de gélido nevoeiro, começaria assim, sei-o bem - "Entrou-me hoje, pela primeira vez neste ano, o Outono pela boca, à boleia de uma castanha assada comprada na baixa." Seguiria depois pela industriosa tarefa de explicar as razões pelas quais percebemos que pertencemos a um lugar e não a outro qualquer, o reconhecimento implícito das ruas, das suas esquinas, pelos odores, pela textura, até chegar ao imo daquilo com que se faz um poema. Trataria depois de explicar que é sempre isso que procuro em tudo, o poema, a coisa inata que há dentro das pessoas e das coisas e por onde passo farejo o poema até o encontrar, ou não, que às vezes o poema é coisa que não se encontra.

Levaria assim a crónica pelo território da busca, e eventual encontro, com o poema que, quando ocorre, tem sabor idêntico a uma vitória na guerra dos dias, espécie de orgasmo que nos resgata do cinzento a que a vida e as suas circunstâncias nos condena a maior parte do tempo. É por isto, e não por qualquer outra razão, que gosto de oferecer poemas aos amigos - aqui um pormenor de semântica, oferecer não é dedicar. Dedicar implica uma razão subjacente, pode nem sequer se conhecer o sujeito a quem se dedica mas sabemos que algo no sujeito espoletou a arma, nos apertou o gatilho do poema, mostrou a estrada e a luz de por onde levar as palavras e isso é toda uma outra conversa sobre guias e referenciais. Já a oferta do poema é uma coisa livre, não referenciada. Dá-se o poema a quem se apetece, sem pedir licença. Quando se escreve um poema, ou quando se atinge - ainda usando uma metáfora orgástica - ele deixa de ser nosso ou inteiramente nosso e se se partilha já não nos pertence senão numa vaga ilusão de posse de autor, coisa semelhante ao amor que se tem sem de facto se possuir.

Por isso às vezes ofereço poemas, quase sempre recém-nascidos, aos meus amigos, para que não fiquem só comigo e procurem com os outros outra luz, e para que outros possam também iluminar-se neles. Não sei se gostam, se lhes agrada que os importune, quase sempre por telefone, em geral por sms, raras vezes por voz - pranto-lhes o poema no gravador, e mais raramente ainda em directo ao ouvido arriscando interromper-lhes os importantes feitos da vida real, tão cheia de curvas e contracurvas, tão avessa à etereadade dos poemas, nem sempre bons, como são os meus.

Aprecie o estimado leitor a sorte que tem em não fazer parte da minha lista de afectos ou, melhor digo, de telefones, para onde debito poemas a horas ingratas. Se, porém, o leitor acaso é meu amigo e já foi contemplado com um desmando "literário" sem aparente razão que não a minha intermitente loucura, peço-lhe o necessário desconto pelas razões antes expostas em abono da partilha de poemas e entusiasmos. Sou assim mas não represento verdadeiro perigo social ou outro.

Entretanto é sexta-feira, pretendo jantar fora e resolvo marcar mesa, não vá dar-se o caso de o restaurante lotar, telefono para reservar mesa e hora, que sim senhor, dizem-me do outro lado, questionando-me se pretendia apenas jantar ou se tinha igual interesse em marcar consulta de astrologia. Fiquei surpresa, desconhecia a fusão sugerida de jantar com bruxos e entendidos no futuro dos outros. Digo que não, pretendo apenas comer, embora me assalte o pensamento que preferia que ao invés de um futuro inventado me inventassem um poema, ainda que fosse de comer como os da Natália.


No final desta crónica o atento leitor meneia a cabeça recriminatoriamente sem descobrir nela, após tanto palavreado, nenhuma real ligação entre o seu título e tudo o que nela se assunta. Mais lhe valia ler Lobo Antunes pensa, e bem acrescento eu, o estimado leitor. Mas eis que num vislumbre de juízo me apronto a deslindar o novelo. É que todos os poemas partilhados em qualquer esquina mal iluminada do tempo foram  todos os lugares onde te amei.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Do amor à pátria que, como mãe bondosa, acolheu a menina tupiniquim




Até parece que foi ontem, mas já lá se vão quatro longos anos. Nunca fui boa em matemática e toda a gente sabe disso. Por isso mesmo, perdoem-me os amantes das "quatro operações fundamentais", para o caso de alguma falha nos meus cálculos. Isso por que fiz cá umas contas muito rápidas, para o que aponto os seguintes resultados: 4 anos multiplicados por 365 dias e 6 horas somam o singelo resultado de 1.461 dias ou, se preferirem, 35.064 horas ou [quem sabe?!], ainda, 2.103.840 de minutos repletos de muita vida desde que pousei meus pés em terras lusitanas.

Esqueçam lá os números por um instante! Primeiro, por que confesso que não conferi se fiz bem as contas todas; Segundo, por que os números pouco importam, já que o que está em causa é a QUALIDADE e não a quantidade dos dias vividos nesta terra que me acolheu de [a]braços abertos.

Já viajei muito por este país e gosto de dizer que conheço melhor a cidade que escolhi para viver [Ó minha adorada Invicta!] que muitas das pessoas que nasceram e foram criadas aqui. E, no decorrer destes quatro anos muito bem passados deste lado do Atlântico, flertei descaradamente com Lisboa, namorei muito seriamente com Viana do Castelo, curti deliberadamente com o Alentejo e arredores. Mas me apaixonei perdidamente pelo Porto. Posso lhes garantir, senhoras e senhores, que foi amor à primeira vista! E o melhor: tudo bem medido e bem pesado, asseguro que este amor é recíproco.

O tempo passa a voar, é verdade. Lembro-me com clareza da tarde em desembarquei aqui, das expectativas todas que trazia em minha bagagem, da saudade daqueles que havia deixado do lado de lá do oceano, do receio de não ser bem aceita [menina forasteira!], das diferenças culturais que sabia que, em breve, enfrentaria... Um turbilhão de sensações que me fazia sentir os pés fora do chão.

Mas o que parecia assustador numa análise muito superficial, logo se mostrou como sendo das melhores experiências de vida que poderia ter. Tantos amores já cá vivi, bem como a sorte que tenho pelos muitos amigos que rapidamente fui fazendo por onde passava [que povo amistoso é o povo português!], talentos que descobri ter, muitas vezes com alguma dificuldade, mas de maneira sempre gratificante. Poderia passar o resto do dia escrevendo, escrevendo, escrevendo... Mas tudo soaria como "lugar comum" [parece sempre tão clichê declarar o amor assim, gritando aos quatro ventos, para que toda a gente possa ouvir].

Assim sendo, e por aqui fico, deixo o registo para a posteridade: BRASIL, "tô" morrendo de saudade e já faltou mais para sentir meus pés no MEU chão outra vez, mas por enquanto... É por cá que quero ficar e, como costumo dizer sempre, "enquanto esta terra por cá me quiser, por cá estarei!". Amo-te, PORTUGAL!


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mesa do Canto – Agora a língua

|Alexandra Malheiro

E agora? Como dizer “Amo-te” num dia de Inverno? Os dias de Inverno são lugares vazios, toscos, cheios de frio e de um musgo verde a lembrar passados humedecidos de ternuras que já não sabemos compreender. E agora? Que vento nos dirá o caminho de ora avante, nos ensinará os passos que havemos de dar, ainda que incertos, ainda que assustados, pela invernia, pelo vento norte, ainda ofuscados pelos fogachos que o verão nos deixou. E agora? Que luz havemos de encontrar, quem nos há-de achar neste deserto cíclico tão doente, tão humedecido por um húmus planctónico, quase quente?

Nenhum amor se deita fora, dizes, mas eu que faço com este nos braços, anestesiado pela distância que o tempo abriu em nós, uma cratera de ausências imperdoáveis, ruídos que abafam os sons da ternura como se estes nunca tivessem existido?

Às vezes ataca-me a saudade e o frio, tudo junto, como um dia de Inverno, mesmo quando ainda é Verão, como hoje, ou é Outono, que sempre há-de seguir-se o Outono a qualquer Verão, ou talvez mesmo Primavera que teimosa vem depois do Inverno a reclamar o Verão, mortificada pelo Sol. Às vezes ataca-me a saudade e o frio, tudo junto, como se a saudade um clima mais próprio dos países frios, dos que tiritam desconsolados sob a luz de nenhum sol, só a sua penosa ausência transformada em saudade numa língua onde a palavra – a saudade  - sequer existe, coisa mais triste esta de tentar dizer saudade sem ter um termo para o fazer, sem ter esta palavrinha para aquecer dentro da boca de encontro à língua. “A minha Pátria é a minha língua” – essa também vazia, que pátrias serão essas em cujas línguas não há “saudade”? Só dentro dos olhos, nas mãos vazias, a saudade sem nome navegará pelo corpo dos que sentem a ausência.

Às vezes ataca-me a saudade e o frio, tudo junto e embora me entristeça e me cubra de musgo por dentro, enquanto divago pelas ruas, pelos lugares agora sem nome, vazios de tudo o que me falta e me tenha de cobrir, tremendo-me o corpo da gélida lembrança desta existência insolitamente desirmanada, sem sentido e solitária, apesar de tudo isto e em me lembrando do que hão-de sentir os que em saudade não têm nem como dizê-lo, pareço menos triste por sentir em português. “Saudado-te”, digo, e já tudo me parece menos infeliz.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mesa do Canto – Das estranhas coisas que me interessam

|Alexandra Malheiro

Na confortável posição em que me encontro, mesa de canto, montra do mundo, que é afinal a montra do meu café, conforme mexo o açúcar no fundo da chávena, pergunto-me que coisas são as que me interessam e que, depois, hei-de verter em prosa ou em verso ou aqui pela crónica a fingir de literatura.

Percebo que do mundo me interessa pouco a crise, os maneirismos afectados do Portas a sacudir-se, ele do governo e o seu desgoverno do capote, interessa-me pouco o ruído fatigado da televisão, o futebólico gemido pseudo-heróico, erguendo cidades de felizes vencedores do nada.

Sento-me no meu café e rápido percebo que é ali que o mundo pára e se estabelece com novas tabelas e balizas, é ali que o meu novo mundo se ancora e me preenche, na verdade o mundo bem podia ser apenas aquilo que vai para lá da montra do meu café.

Interessam-me os pedintes, tão diversos, o cão o seu mendigo que por ele pede, por afecto, o de guitarra triste que canta com voz roufenha uma música à qual expeliu já toda a melodia, a velha arrastando-se ao calor, vestida de andrajos próprios para o Inverno há muito ultrapassado, interessa-me o quarteto de mórmones apertados por igual nas suas gravatas, amassando a bíblia cansada no sovaco. Interessa-me a rapariga muito branca e muito magra com uma saia subnutrida interrompida ao mais alto nível das coxas, deixando antever um tugúrio – talvez tão pálido? – como a pele que a ele conduz.

Interessa-me o rapaz do braço tatuado, desenhado de monstros e infernos – quem sabe os seus? – até à altura do punho. Interessa-me o homem velho, bem vestido e penteado, que há anos conheço fiel ao mesmo café, e que traz agora uma bengala, encastoada a prata, nem tanto para se apoiar nela mas para a usar arrastando-a, como os cegos, o seu sonar sondando o caminho adiante – como seremos nós na sua idade? Serei ainda, como ele, fiel ao mesmo café? Segurarei a chávena com trémulas mãos e aos olhos baços que lágrimas me acorrerão?

Interessa-me o homem extravagante, todo vestido de branco, de redundante e efeminada bolsa ao ombro, cantarolando bem alto uma canção que o par de auscultadores, também eles brancos, lhe debitam aos ouvidos.

Interessa-me o casal, pouco mais que adolescentes, ela de olhos rasos de água, vermelhos de abismo e ele procurando secá-los no seu abraço demorado – que misérias os devastariam àquela idade?

Interessa-me a madame e o seu lulu, com lacinhos grená nos caracóis e o homem das calças vermelhas, vagamente semelhando um artista ou um cowboy, nem sei bem.

E, é bem claro, interessa-me o silêncio que se põe na tua boca, o desejo precipitado nas pontas dos teus dedos e interessa-me ainda mais o castanho arredio dos teus olhos.

Enfim, acento e concluo, que tudo o que a mim me desperta é quanto ao mundo nada interessa.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Quem nos roubou a primavera?

|Filipa de Lima

Pé ante pé, com a graciosidade de uma bailarina profissional, M dança ao sabor da música do piano grave. As suas pernas sobrepõem-se numa conjugação eterna. Eleva os seus braços em arco sobre a cabeça e as pontas dos dedos tocam-se levemente. Mantém o olhar sereno, fixo num ponto imaginário, como o horizonte de um final de tarde quente.
As sapatilhas de dança estão gastas, as horas dos dias são passadas na sala em frente ao espelho. A mão apoia-se no corrimão, mantém-se em pontas e o seu gesto é leve, gracioso, perfeito. O braço sobe, as costas arqueiam, lança o pescoço para trás. Devagar volta à posição inicial. Larga o corrimão e corre para o meio da sala. Rodopia sobre ela própria, em cada volta cresce, de si para si. Só para si. A inocência da idade, a ingenuidade da infância, e rodopia, rodopia sobre ela própria.
Apesar do rosto sereno, não consegue encobrir o olhar duro. Os seus olhos castanhos não são suaves o suficiente para o ballet clássico. A sua essência provocadora não se entrelaça com a elegância do ballet. Não consegue mudar o olhar, ainda não sabe camuflá-lo. A sua pauta de música é grave, sonora e marcada de timbre forte.
Rodopia, rodopia sobre ela própria. Fá-lo pela eterna inocência, pela eterna infância que não quer ter. Pela ansiedade em crescer, em perder a pureza do seu gesto ao elevar os braços sobre a cabeça num arco perfeito.
As sapatilhas gastas mostram como rodopia e aprisiona a sua ingenuidade. As suas meias brancas têm uma malha no joelho, mas as suas quedas não a fazem desistir.
Rodopia, rodopia sobre ela própria, acabando deitada no chão de barriga para baixo. Apoia-se nos cotovelos e a palma da mão no seu queixo afirma a sua obstinação. O seu olhar é atrevido e malicioso. Balança os pés no ar seguindo a melodia do piano.
Vira-se de barriga para cima, olha o tecto do palácio velho, levanta-se devagar. Rodopia, rodopia sobre ela própria. Fá-lo pela sua eterna e inesgotável leveza.

Da porta entreaberta revia a sua infância, de olhos postos no meio da sala, em frente ao espelho. Via a sua expressão, velha e cansada. Rodopiou, rodopiou sobre ela própria, em direcção à escadaria, pela ansiedade que teve em crescer, em perder a pureza do seu gesto ao elevar os braços sobre a cabeça num arco perfeito.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Morte

|Manuel Jorge Marmelo

Há manhãs em que tenho nas mãos um certo cheiro a morte. Tomo banho, esfrego-me, perfumo-me, mas o cheiro a morte persiste. Trago-o para o trabalho, esqueço-me dele, mas, de vez em quando, esse cheiro invade-me o nariz e faz-se recordar.

No autocarro, se vejo alguém olhando-me por mais do que um instante, desconfio que fui desmascarado e que os outros passageiros também sentem o cheiro a morte que trago nas mãos. Fecho os olhos, sinto perfeitamente o cheiro e imagino que os utentes me apontam todos com o nariz, que trocam olhares para dizerem “é ele, é esse o que cheira a morte”. Vejo-me levantando as mãos para mostrá-las como quem diz “vejam bem, as minhas mãos estão vivas, não podem cheirar a morte”, mas sei perfeitamente que é má ideia fazê-lo.

É possível que me acusassem de outras mortes cujo odor me tivesse impregnado, que me exigissem explicações e fizessem pergun- tas, mas eu não saberia como responder-lhes. Não sei onde escondo os meus cadáveres.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pito mal lavado

|Manuel Jorge Marmelo

Sou, com certa frequência, um cronista incréu. Fio-me muito pouco nas capacidades mediúnicas daquilo que escrevo e, por isso, venho para o autocarro armado em intelectual, com um livro debaixo do braço e disposto a aproveitar o aborrecimento da viagem para ler um pedacito. Mas a realidade – ah! a realidade... – depressa me agarra pelo nariz (atenção: isto não é uma metáfora) e me transtorna os planos.

Não pude, por isso, ler quase nada de A Pista de Gelo, do Roberto Bolaño. Antes de mais nada, porque Clarineide chegou a correr à paragem, num elegante casaco azul eléctrico e ainda a tempo de apanhar o atrasadíssimo 502 das 9h01. Pus-me, pois, à procura do Rei Camaleão, para ver se o via a pôr a ponta da língua de fora da boca, guloso e concupiscente. Mas o homem não estava.

Fui-me sentar e abri o livro, um pouco enfadado por ver goradas as minhas congeminações antropofágicas, mas logo a voz da utente mais habitual do autocarro soou atrás das minhas costas, recordando-me o lapso que cometi na crónica pretérita. Fui, com efeito, muito pouco ambicioso na descrição do ambiente olfactivo do autocarro e devo, por isso, curvar-me aos pés da sabedoria enciclopédica daquela mulher de aparência simples, a qual contava como tinha, esta manhã, sido obrigada a sair da viatura por causa do mau cheiro.

Simples e prosaica catinga? Nada disso. Parece que o autocarro trazia, isso sim, um cheiro "azedo" e muito intenso a “pito mal lavado”, ou nem sequer lavado e em péssimo estado de conservação, talvez isto fosse o mais certo, pois o odor do dito entrepernas foi também descrito como “podre”.

“Até parecia que vinha uma pessoa morta no autocarro”, ouvi dizer. E fiquei a imaginar, melancolicamente, um pito mal lavado e apodrecido no corpo de uma pessoa viva circulando nos transportes públicos, incapaz, portanto, de me concentrar nos literários acontecimento ocorridos em Z.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Tragédia

|Manuel Jorge Marmelo

O que ireis ler a seguir é a narração consternada de uma tragédia. Privai-vos, pois, de risinhos e risotas e tratai de seguir o caso com atenção e tão compungidos como a gravidade dele impõe.

Está feito o aviso, agora precatai-vos.

A mulher estava ainda visivelmente abalada ao fim da tarde, apesar de o acidente ter ocorrido de manhã. Ora o contava ao telemóvel, ora o dizia de viva voz a quem se sentasse ao seu lado no autocarro. Mas era, digamos assim, como se ainda estivesse a ver as coisas a acontecerem diante dos próprios olhos. E não era para menos.

Tudo se pode resumir a uma frase — como ela fez quando disse "ainda hoje vi uma pessoa ser esmagada na cabeça" — ou ser narrado com os pormenores que igualmente compõem um caso assim. A saber: ia ela, a mulher, caminhado ao lado de uma outra, a qual daí a nada estava no chão, morta de todo, "com a cabecinha esmagada" por um camião do lixo que ia esvaziar os contentores da lota. "O homem ainda apitou, mas não a viu lá de cima. Dá logo na televisão e amanhã vem no jornal".

A mulher do autocarro, porém, salvou-se da tragédia, e não podia ser de outro modo — ou não a teríamos ali a contar o caso tal como ele sucedeu. A avaliar pelo que a ouvi dizer, iam as duas a par, ela e a falecida, mas quis o destino que uma parasse para acender um cigarro e a outra não e, imediatamente, que a fumadora se salvasse e que a saudável, supondo que o era, viesse a ser tão brutalmente colhida pela morte travestida de camião do lixo.

É, afinal, como eu sempre digo: não andará longe o dia em que se farão as contas a todas as almas que se salvaram graças ao nocivo tabaco e, nesse dia, os fumadores contentar-se-ão por tê-lo sido. Tal como aquela aventurada mulher, este vosso criado pára muitas vezes na rua para acender o seu fuminho e, até à data, encontra-se perfeitamente bem de saúde.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Rei camaleão

|Manuel Jorge Marmelo

Só há poucos dias reparei no homem que, pelos vistos, viaja sempre no banco mais próximo da porta, praticamente imóvel, com os grandes olhos emergindo das pálpebras carnudas e moles. É bastante calvo, tem um nariz curvo e leva sempre as mãos quentinhas, protegidas por luvas de lã castanha, muito surradas. Notei-o apenas quando, há dias, me sentei ao seu lado e percebi como mantinha o olhar oblíquo fixo num ponto imaginário e imóvel no exterior do autocarro, algures entre o vidro da janela e o chão, e como os olhos dele são enormes globos vítreos e quase sem vida – como, enfim, punha a ponta da língua de fora da boca, devagarinho.

Pareceu-me uma espécie de grande lagarto, mas tomei-o por um utente ocasional que provavelmente não voltaria a ver e que, portanto, esqueceria ainda antes de ter tempo para escrever o naco de prosa enxuto que vossas excelências estão a ter o prazer de acompanhar. Mas estava enganado. O homem, afinal, está todos os dias sentado no mesmo banco, encostado à janela, com os olhos parados e a língua movendo-se devagar entre os lábios. Tenho agora ainda mais certeza, por isso, de que se trata de um réptil, mais concretamente de um enorme camaleão careca que se empenha em passar despercebido e em tornar-se invisível para os outros utentes do transporte público.

Tinha, hoje de manhã, acabado de formular esta acutilante teoria quando, de súbito, notei que o rei camaleão movia a cabeça muito devagar e que o olhar dele se deslocava no espaço, manso ainda e como morto, mas fixando já alguma coisa no interior do autocarro. Uma mosca apetitosa? Algum mosquito? Talvez uma abelha abrigando-se ali dentro do frio da manhã? Segui o olhar do lagartão e percebi tudo. Quem lá vinha, aproximando-se da porta, era, enfim, a moça morena das grandes argolas prateadas, a dos glúteos generosos e firmes, rebolativa e fértil mesmo nestas rigorosas manhãs de Inverno. O rei camaleão moveu a língua, uma, outra e outra vez, mirando-a quase sem mover os olhos. Ela saiu na paragem seguinte. E ele voltou a fixar o ponto invisível onde os répteis contemplam coisas que nós não vemos nem pudemos imaginar.

domingo, 2 de junho de 2013

Mesa do Canto – As falsas questões

|Alexandra Malheiro

(dedicada ao Rui Magiolli)

“É uma falsa questão” dizes-me, ter ou não ter tema para uma crónica é uma falsa questão. Pois se estás sentado comigo no café- ainda que talvez não estejas e seja apenas eu a imaginar-te, se dialogas comigo, invectivando-me até a largar o que leio para te ouvir dissertar sobre uma coisa qualquer.

Observo a Granta, ainda fresquinha, acabada de comprar, ainda por ler, sobre o tampo em mármore da mesa – fala do EU, está lá escrito, dá-lhe título até – as diferentes visões do eu e quantos “eus” haverá dentro de cada “eu” que connosco transportamos. Dir-me-ás de novo que é uma falsa questão e que quando estou contigo, e apesar do teu tão elaborado “eu”, não será apenas contigo que estou, pois serás tu, com o teu “eu” pessoal mais o “eu” que eu te inventei, como aquela velha história que todos os psiquiatras citam de que quando um casal está na cama são sempre quatro e não dois – os dois que de facto existem e outros dois que cada um deles inventa dentro de si sobre o outro. Aí interrompo-te, primeiro porque me enfada essa conversa, ainda que possa ser verdade, sobre a dupla visão – do que somos e da forma como os outros nos vêm, e depois porque a falsa questão és tu quem a levanta, senão repara: ainda que eu te possa imaginar alguma coisa que não és, não são dois “eu” de ti que de facto existem, será apenas um “eu” o teu “eu” real e um “tu” o que eu invento.

Conforme desenrolo este novelo de ideias algo perturbadas pela febre e pelas leituras que, na verdade, ainda não fiz, sinto que me falta a voz, perco-a progressivamente, sei que dentro de menos de uma hora não serei capaz de falar, afonia completa. Talvez isso não seja importante ali no café, nem amanhã. Que sei eu, que importa se não me ouvirem? Apenas me importa se te lembrares de me ligar amanhã e eu não conseguir falar-te, ficarias a ouvir apenas um cicio telefónico, acharias tratar-se de um artefacto, uma ilusão ou uma interferência, ignorar-me-ias não me ouvindo. Também aqui o teu e o meu “eu” ou o meu “eu” e o “tu” que de mim inventas não se cruzariam, perder-se-iam na linha e isso sim seria grave.

Apago o cigarro e com ele esta ilusão daninha – Que diabo,  por que havias de me telefonar? Esse seria o “tu” que eu ainda imagino, um “tu” que não existe em ti, no teu “eu”. Aos anos que não nos cruzamos na linha, esta febre deve estar a perturbar-me mais do que o esperado! Talvez acenda um novo cigarro para pensar sobre isto. Mergulho as mãos nos bolsos à procura de um mas não está fácil. Na verdade eu não fumo, nunca  fumei.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O olhar do editor

|Manuel A. Domingos



Quando em 2008 ouvi, num café de Punta Umbria, Antonio Orihuela dizer parte deste longo poema, pensei: quando um dia tiver uma editora publico-o. Em Janeiro de 2013 – após cinco meses no desemprego – decidi criar a editora Medula. E em Fevereiro saiu Que o Fogo Recorde os Nossos Nomes, de Antonio Orihuela.

O autor foi receptivo à sua publicação em Portugal. Até à publicação deste livro, Antonio Orihuela apenas estava representado nas revistas Sulscrito e Bíblia, bem como numa antologia de poesia espanhola organizada por Joaquim Manuel Magalhães: Poesia Espanhola anos 90. O autor insere-se no movimento colectivo da poesia da consciência. De marcado pendor libertário, a sua poesia tem uma voz desassombrada e actual.

Que o Fogo Recorde os Nossos Nomes é um longo poema, que segue a tradição peninsular dos cantares de gesta. Alguns poderão ver nele reminiscências do poema mais conhecido e mediático de Allen Ginsberg. Só que em Ginsberg celebra-se a vida dizendo-lhe “olá”; em Orihuela celebra-se a vida dizendo adeus.


domingo, 5 de maio de 2013

Mesa do Canto – Uma memória de cafés

|Alexandra Malheiro


Escrevo-vos, hoje, do Café Imperial, não o do Porto, de 1936, com a águia em bronze gigante, de Henrique Moreira, encimando a porta giratória, com profusão de espelhos e prateados e um longo balcão ao fundo e o vitral Art Déco de Leon, até porque esse velho Imperial tem hoje, sobreposta à sua pujante arquitectura, a decoração pastilhada do MacDonalds em que se transformou há vários anos, com isso descaracterizando por completo o café que antes fora. Este de onde vos escrevo é, também ele, Art Déco com colunas de inspiração oriental e motivos animais, com altos-relevos e espelhos largos e encontra-se em Praga sendo um dos vários cafés praguenses a não perder. Escreveu Garrett que o viajante experimentado e culto chegando a um café, em qualquer lugar que visitasse, facilmente reconheceria onde se encontrava pelos seus usos, costumes, pelo aspecto e pela fauna que nele achasse. Fiz, pois, como Garrett e, em chegando a Praga para umas curtas férias, tratei de assentar arraiais num dos seus cafés para dele fazer a minha mesa do canto. Acomodo a meu lado “Imagens de Praga”, uma espécie de livro de viagem em bom, do irlandês John Banville, recentemente editado pela ASA. Nada como um livro e um café para nos contextualizarmos com o lugar que visitamos. A “ideia de europa” de Steiner desenha-se através do mapa das cafetarias. E eu dou por mim, uma vez mais, a resvalar para a memória pessoal dos meus cafés.

sábado, 4 de maio de 2013

Sulscrito nº 4

|Fernando Esteves Pinto




Numa relação de amizade a simpatia é um maneirismo. Um estilo ou afectação que apenas serve para decorar um modo de ser que dificilmente encontra correspondência na pessoa que se deseja conquistar e torná-la nossa amiga. Muitos são os amigos simpáticos e raros os que sentimos que sejam honestos, sinceros e verdadeiros. Na minha ligação de amizade com o Rui Costa, a recompensa maior foi descobrir nele a pessoa autêntica que soube dividir comigo, correcta e lealmente, a fortuna do seu carácter. A ele estarei sempre grato, tanto pelos momentos que passámos juntos, como pelas emoções vividas que persistem agora na memória. 

Posso não editar outro sulscrito, e se assim for, esta edição nunca será a última, pois estou convicto de que não há um fim para recordar um amigo, cabendo a todos os que nesta publicação prestaram a sua homenagem continuar a testemunhar a vida e a obra do Rui – obra literária que não se esgota nos livros publicados.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Um poeta pelos pulmões


|Alexandra Malheiro

Agora os dias são mais curtos, não sei se pela força do calendário, a aproximação da Invernia, se por nos teres deixado assim, tão desavisadamente, a olhar o vazio, o buraco negro por onde partiram as palavras. Levaste-as contigo, decerto.

Agora que aqui não estás, o que dizer (ou pensar, que sei eu?) sobre a vaga de frio que vem com o Outono, da gramática que nos falta porque nos faltas, dos poemas todos que ainda estão por escrever?

Agora que a cidade sussurra a tua ausência, as bibliotecas choram-te em silêncio, “porque o resto é silêncio (que resto?)”, elas sabem que não voltarás a dar nome às palavras, nem voltarás a abrir-lhes os livros, que nem Milne, nem Borges nem Céline  te trarão de volta dos mortos agora que talvez tenhas achado  “um lugar onde pousar a cabeça”.

sábado, 2 de março de 2013

Mesa do Canto – Sobre chuva miúda e a “memória possível” de Gomes Ferreira


|Alexandra Malheiro

Os dias vão correndo estranhos também no meu café. A chuva miúda teima em pegar-se aos vidros e, com ela, se esvai a nitidez para lá da montra. A mim mói-me por dentro este chuviscar constante.
Leio uma coisa aqui e outra ali, avulsas, sem conseguir traçar entre elas uma credível teia que possa alinhavar-se em crónica, uma que possa partilhar convosco. O Carnaval é um penumbroso tempo de chuva, esquecido de um feriado que nunca o foi bem, os foliões recalcitrantes guardam as fantasias nos guarda-fatos derivado ao mau tempo, enquanto palhaços bem vestidos continuam a perorar no horário nobre da televisão. O Papa renuncia ao seu pontificado enquanto no mesmo dia um fotógrafo capta um raio a atingir a Basílica de São Pedro. Na rua onde o meu café está instalado há vários indigentes mendigando uns trocados, a miséria é a de sempre.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mesa do Canto – Lições avulsas de literatura


|Alexandra Malheiro 

Escrevo-vos da mesa do canto do meu café. O meu café é na baixa do Porto, tem uma montra larga de onde vejo o sol, ou a sua ausência. Daqui vislumbro a granítica sombra da cidade seguindo com o olhar a  esquina onde o eléctrico curva chiando o seu doce gemido, lembrando-me que é pouco mais que uma memória actualizada para turista ver.

A minha mesa de canto é onde me sento e medito, riscando estas palavritas e ideias que convosco conto ir partilhando. Assim a musa, a pena (que a bem dizer é esferográfica) e a memória me ajudem, dar-vos-ei conta do que vejo e sinto desde a montra do meu café. Contar-vos-ei também dos que aqui passam, entre eles alguns amigos que, sentando-se à minha mesa, partilham cafés, torradas e ideias.